O LEGADO INTERROMPIDO
A trajetória de seu avô Octávio Lamartine de Faria (1903-1935), magistralmente resgatada na obra 'Vida, Visões e Versões', configura-se como um dos episódios mais melancólicos e emblemáticos da política norte-rio-grandense do século XX.
O avô não era apenas o depositário de um nome ilustre, mas o símbolo de uma promessa de modernidade administrativa e econômica. Sua vida, nesse limiar, foi brutalmente ceifada em 1935, aos trinta e dois anos, em um cenário de violência política exacerbado pelos desdobramentos da Revolução de 1930.
Sua morte representou mais do que a perda de uma liderança jovem; significou a interrupção abrupta de um projeto de Estado. Durante décadas, o crime foi envolto por um silêncio quase sepulcral, tanto na esfera historiográfica quanto no recôndito das memórias familiares, como se a dor e a impunidade tivessem selado os lábios de uma época.
A obra resenhada pelo neto rompe esse lacre histórico, recompondo os fragmentos de uma biografia marcada por perseguições implacáveis e mergulha nas versões e interpretações que cercam o caso, lançando luz sobre os bastidores de um Rio Grande do Norte conflagrado, onde a autoria intelectual do crime permaneceu, propositalmente ou por ineficiência, nas sombras das dúvidas jamais esclarecidas.
Trata-se de uma leitura essencial para compreender como a violência política moldou e, por vezes, mutilou o destino das instituições potiguares.
A iniciativa de reconstruir essa memória partiu do próprio empresário que, há mais de três anos, recebeu de sua tia, Tásia Lamartine, um conjunto de cartas escritas por seu avô ao pai, o então governador Juvenal Lamartine de Faria (1874-1956), durante seus períodos de formação acadêmica em Lavras, em Minas Gerais, e posteriormente nos Estados Unidos.
Essas correspondências, além de revelarem aspectos íntimos da personalidade de Octávio, evidenciam sua disciplina intelectual, seu senso de responsabilidade e sua precoce maturidade. Durante décadas, assim compreendidas, sua história foi pouco comentada no seio familiar, muito em razão do trauma vivido por sua esposa, Dinorá, e por seus filhos, ainda muito pequenos à época do ocorrido.
O mais novo, Clóvis, contava apenas três meses de vida quando perdeu o pai. A consciência da dimensão histórica de seu avô começou a se formar no neto ainda na adolescência, quando, aos quatorze anos, ao enviar um telegrama ao pai, residente na Rua Otávio Lamartine, em Natal, foi interpelado pela atendente sobre a coincidência do nome.
Esse episódio aparentemente banal despertou nele a percepção de que aquela memória silenciada possuía relevância pública.
O processo de produção do livro foi complexo e coletivo. A dificuldade de leitura da caligrafia das cartas levou o neto a buscar auxílio especializado, chegando ao nome de Araújo Silva, que iniciou o trabalho de organização e transcrição do material. Posteriormente, o historiador Tavares de Lyra, que já pesquisava sobre o tema há duas décadas, foi convidado a integrar o projeto como coautor, contribuindo decisivamente para a contextualização histórica e a análise crítica das fontes.
O título 'Vida, Visões e Versões' reflete com precisão a proposta da obra: apresentar as diferentes narrativas existentes sobre o homícidio, uma vez que os depoimentos de testemunhas, incluindo familiares e os próprios agentes envolvidos no crime, divergem em detalhes cruciais.
A recepção do livro tem sido marcada por elogios à clareza expositiva e à fluidez da narrativa, além de ter despertado novas memórias e relatos, o que levou o autor a cogitar a elaboração de um segundo volume, ampliando ainda mais o registro documental.
Apesar de sua curta existência, Octávio Lamartine de Faria construiu uma trajetória pessoal e profissional notável. Sua formação acadêmica foi cuidadosamente orientada pelo pai, Juvenal Lamartine, que o enviou à renomada escola de agronomia de Lavras, em Minas Gerais, juntamente com outros jovens da família.
Seu desempenho excepcional lhe garantiu o primeiro lugar entre os alunos, o que resultou na concessão de uma bolsa de estudos para os Estados Unidos, onde permaneceu por dois anos, dedicando-se ao aperfeiçoamento do algodão Mocó do Seridó, cultura estratégica para a economia regional. Retornou ao Brasil em 1926, trazendo consigo conhecimentos técnicos avançados e uma visão moderna de desenvolvimento agrícola.
No plano profissional, ocupou cargos de grande relevância, revelando capacidade administrativa e espírito público. Foi presidente do Banco do Estado do Rio Grande do Norte, então conhecido como Banco de Natal, fundado em 1905 por Augusto Tavares de Lyra (1872-1958) e posteriormente adquirido pela família Lamartine.
Exerceu também o cargo de prefeito de Acari e dirigiu a Estação Experimental do Algodão no Seridó, atuando diretamente na modernização das práticas agrícolas da região. Na esfera pessoal, casou-se, em 1928, com Dinorá Cavalcante, filha do advogado Francisco Ivo Cavalcante, com quem teve três filhos: Jurema, Tásia e Clóvis. Apenas Jurema deixou descendência.
As cartas revelam ainda que, mesmo jovem, Octávio assumiu responsabilidades familiares significativas, como a supervisão da educação de seus irmãos mais novos, a exemplo de Silvino, enquanto o pai exercia o governo do Estado.
Esse funesto episódio não pode ser compreendido fora do contexto político extremamente conturbado da década de 1930. Seu pai, Juvenal Lamartine, assumira o governo do Rio Grande do Norte em 1928, como representante da segunda oligarquia estadual, a Bezerra de Medeiros.
Seu governo é frequentemente comparado ao de Alberto Maranhão pela orientação modernizadora, destacando-se iniciativas voltadas à aviação, ao incentivo ao esporte, incluindo a doação do terreno para a construção de um estádio e ao combate sistemático ao cangaço.
Ademais, a Revolução de 1930, liderada nacionalmente por Getúlio Vargas, desestabilizou completamente esse projeto. Utilizando o caso de João Pessoa, na Paraíba, um crime de natureza privada transformado em símbolo político, o movimento revolucionário depôs o presidente Washington Luís e afastou todos os governadores associados às antigas oligarquias, entre eles Juvenal Lamartine.
Perseguido politicamente, Juvenal foi forçado ao exílio na França, onde permaneceu por cerca de três a quatro anos. Durante esse período, Octávio Lamartine permaneceu no Rio Grande do Norte, assumindo a responsabilidade pelos negócios da família e pela proteção de seus parentes.
Com a queda do antigo governo, o Estado passou a ser administrado por interventores nomeados diretamente por Vargas, inaugurando uma fase de intensa perseguição aos aliados de Juvenal e aos membros do Partido Popular, fundado por José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971).
Em agosto de 1933, foi nomeado interventor Mário Câmara, filho de um combatente da antiga oligarquia Albuquerque Maranhão. Embora sua missão oficial fosse pacificar o Rio Grande do Norte, suas tentativas de aproximação com o Partido Popular fracassaram, especialmente quando exigiu controle absoluto da legenda, que já apoiava Rafael Fernandes Gurjão (1891-1952) como candidato ao governo.
Nesse cenário, destacou-se a figura de Café Filho, então Chefe de Polícia, que nutria profundo ressentimento contra Juvenal Lamartine, responsável, anos antes, pela anulação de sua eleição para vereador. Café tornou-se o principal articulador da perseguição política, especialmente no Seridó, para onde, segundo o historiador Tavares de Lyra, indicou o Tenente Rangel, um oficial comissionado, sem carreira militar regular, que se encontrava preso em Recife por outros delitos.
Rangel recebeu plenos poderes para desarmar e intimidar adversários do governo, instaurando um verdadeiro clima de terror, marcado por arbitrariedades e violências, como a agressão ao octogenário Coronel Felinto Elísio de Oliveira Azevedo (1852-1944), líder político de Jardim do Seridó.
O assassinato de Octávio Lamartine ocorreu em 13 de fevereiro de 1935, na Fazenda Ingá, em Acari, e representou o ápice dessa escalada repressiva. Nos dias que antecederam o crime, aliados políticos começaram a desaparecer, entre eles João Augusto, de Carnaúba dos Dantas. Temendo por sua vida, Octávio obteve um habeas corpus preventivo junto ao magistrado Thomaz Salustino Gomes de Melo (1880 -1963).
No dia fatídico, havia acabado de retornar do campo e brincava com seu filho recém-nascido quando um caminhão transportando policiais chegou à fazenda. Após entregar a criança à tia, pediu à esposa que buscasse o documento judicial e dirigiu-se ao encontro dos agentes, comandados pelo Tenente Rangel e acompanhados pelo Sargento Galdino e pelo delegado de Acari, Vasconcelos.
Ao apresentar o habeas corpus, ouviu de Rangel a frase que se tornaria símbolo da arbitrariedade do período: “O habeas corpus lhe livra da cadeia, mas não lhe livra da morte”. Em seguida, o Sargento Galdino abriu fogo. Dinorá tentou se interpor entre os disparos e o marido, mas foi afastada. Octávio caiu mortalmente ferido nos braços da esposa, pedindo-lhe que ela cuidasse dos filhos. Os assassinos deixaram o local atirando para o alto e gritando vivas a 'Mário Câmara'.
O crime provocou profunda comoção. O corpo foi fotografado na sala da fazenda, ao lado do habeas corpus, numa imagem que se tornaria um documento histórico contundente. José Bezerra de Araújo, primo de Octávio e pai do ex senador "Chimbica', deslocou-se corajosamente de Currais Novos a Acari para buscar o corpo e amparar a família.
O traslado até Natal ocorreu sob chuva intensa e constante ameaça de interceptação policial, até que o Tenente Ulisses Cavalcante, irmão de Dinorá, encontrou o cortejo e garantiu sua passagem. O velório ocorreu na residência da família, na Rua Trairi, e o sepultamento, no Cemitério do Alecrim, reuniu uma multidão, apesar da ostensiva intimidação policial, com viaturas circulando com sirenes ligadas.
Os executores diretos, Rangel, Galdino e Vasconcelos, foram presos. Rangel tentou atribuir a culpa a dois soldados recém-incorporados, sem sucesso. A pressão popular levou ao afastamento de Mário Câmara da interventoria, sendo substituído por Antônio de Souza, que exigiu que a investigação apontasse o mandante do crime.
Assim sendo, em novembro de 1935, durante a Intentona Comunista, os três assassinos fugiram da prisão juntamente com outros detentos e participaram de atos de desordem. Posteriormente, foram recapturados. Rangel foi localizado na Bahia. Cumpriram suas penas e, uma vez libertados, morreram de causas naturais. Rangel sofreu um infarto fulminante poucos meses após deixar a prisão.
O livro 'Vida, Visões e Versões' não apresenta uma conclusão definitiva sobre a autoria intelectual do assassinato, mas expõe as principais teses sustentadas por depoimentos e indícios. A mais recorrente aponta João Café Filho como o principal mandante, movido por vingança pessoal e política contra a família Lamartine.
Outra hipótese atribui motivação direta ao próprio Sargento Galdino, ligado ao cangaceiro Chico Pereira, morto pela polícia por determinação de Juvenal Lamartine. Seja qual for a verdade última, o fato é que o crime jamais foi plenamente elucidado.
Apesar das tentativas de apagamento histórico, o nome de Octávio Lamartine de Faria permanece vivo. Uma escola em Cruzeta que leva seu nome destacou-se nacionalmente ao alcançar nota máxima em avaliações educacionais, tornando-se motivo de orgulho para a família.
Para seu neto, Octávio Lamartine de Azevedo, a publicação do livro representa uma vitória pessoal e um ato de justiça histórica, ao resgatar a memória de um homem cuja vida foi brutalmente interrompida no auge de seu potencial.

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