VOCÊ FALA COM JESUS!
Antes de alcançar a Prefeitura de São Rafael, Canindé construiu sua vida profissional no comércio local, atuando como vendedor e responsável pela farmácia pertencente a Florizante Barros, figura conhecida na cidade e herdeira de uma família de larga influência política.
Há, inclusive, a percepção recorrente de que a farmácia tenha sido posteriormente adquirida por Canindé, o que reforça a continuidade dessa relação profissional e pessoal. Durante o período crítico da pandemia de COVID-19, demonstrou lealdade e espírito solidário ao deslocar-se de São Rafael para Açu, com o objetivo de auxiliar Florizante na condução de outro estabelecimento farmacêutico, gesto que lhe rendeu ainda maior reconhecimento e apreço junto à comunidade.
Descrito como homem simples e “muito bem quisto” pela população, Canindé da Farmácia chegou ao pleito municipal sem histórico político formal, fato que tornou sua eleição ainda mais emblemática.
No plano familiar, suas conexões o situam diretamente no interior de uma rede histórica de poder. Canindé é casado com a irmã de José de Arimateia, conhecido como Zé de Arimateia, e é filho de Jesus, personagem cuja vida se entrelaça intimamente à história política local.
Alíbio Pinheiro da Câmara, eminente patriarca e ex-prefeito de São Rafael, exerceu uma influência que transcendeu as fronteiras municipais, ecoando por todo o Seridó e o Vale do Açu. Casado com Febrosina de Oliveira Barros, o casal gerou seis filhos: Florizante, Francisco, Mercina, Nerci, Nanida e Nilton. Dentre eles, destacou-se Francisco, o célebre "Chico Barros", que uniu a distinção da odontologia ao rigor do oficialato como Coronel da Polícia Militar.
Durante a década de 1960, a gestão de Alíbio em São Rafael foi marcada por uma intensa efervescência política, tornando a cidade ponto de convergência para as principais lideranças estaduais da época. Homem de posses e prestígio, era o proprietário da Fazenda Cavalo Bravo, situada nas imediações de Lagoa Formosa, propriedade que o consolidava no âmago da elite rural e política da região.
Nesse cenário de distinção, a figura de Jesus notabilizou-se como seu motorista particular, testemunha ocular do cotidiano de uma das famílias mais influentes do interior potiguar. Hoje, o legado de Alíbio Pinheiro da Câmara permanece perpetuado na memória coletiva e na própria geografia urbana, emprestando seu nome a uma das principais vias centrais de São Rafael.
Sua esposa, Febrosina, era oriunda da tradicional estirpe dos Barros, sendo irmã de Tristão de Barros, outrora prefeito de Currais Novos. A teia familiar estendia-se a João Barros, natural de Lagea Formosa e radicado em Natal desde o ocaso da década de 1960. Tais laços colaterais evidenciam a capilaridade da teia familiar pelo interior potiguar, alcançando inclusive a genitora de Margares, tabelião público em Açu e neto de Febrosina.
É nesse contexto que se insere uma anedota emblemática, preservada na memória regional, envolvendo Monsenhor Walfredo Dantas Gurgel (1908-1971), então candidato ao governo do Estado. Durante uma de suas viagens de campanha, uma comitiva formada por figuras expressivas da política potiguar — entre elas Clóvis Mota, apontado como possível vice, Aristófanes Fernandes e Silva (1911-1965), chefe político de Santana do Matos, e Aluízio Alves (1921-2006) — deslocava-se em jipe para almoçar na fazenda Cavalo Bravo, a convite de Alíbio Pinheiro.
No caminho, em uma estrada estreita e empoeirada, o veículo da comitiva roçou na caminhonete conduzida por Jesus, pai de Canindé, que seguia em direção a São Rafael para comprar bebidas destinadas ao almoço.
O incidente, aparentemente banal, revelou de forma eloquente as tensões e hierarquias daquele tempo. O motorista do jipe desceu de modo arrogante, imputando a Jesus a responsabilidade pelo ocorrido. Com serenidade, Jesus respondeu que, dadas as condições da estrada, a culpa era compartilhada.
Diante da resposta firme, o motorista questionou se ele sabia a quem pertencia o carro, afirmando tratar-se do veículo de Monsenhor Walfredo. Indagado sobre seu nome, Jesus respondeu com simplicidade: “Eu sou Jesus”.
A cena, ouvida pelo próprio Monsenhor Walfredo, provocou imediata repreensão à prepotência do motorista. Com ironia fina e senso de humanidade, o líder político observou: “Olha aí a sua prepotência. Sabe que esse carro é de Jesus?”.
Ao chegarem à fazenda, o episódio teve um desfecho simbólico. Monsenhor Walfredo solicitou a Alíbio Pinheiro que convidasse Jesus a sentar-se à mesa com a comitiva, declarando publicamente o desejo de almoçar ao lado direito de 'Jesus'. O gesto, simples em aparência, tornou-se um marco na memória local, ilustrando a complexa convivência entre poder, respeito e dignidade humana no interior das relações políticas sertanejas.
Essa prosa, mais do que um episódio pitoresco, ilumina o ambiente social e político no qual se formaram as bases que, décadas depois, permitiriam a ascensão de Francisco Canindé Pinheiro dos Santos à Prefeitura de São Rafael.
Sua eleição não pode ser compreendida apenas como um fato isolado da contemporaneidade, mas como resultado de um longo processo histórico, construído por laços familiares, relações de confiança, convivência cotidiana e memória compartilhada.
Assim, a figura de Canindé emerge como herdeira simbólica de uma tradição política informal, na qual o prestígio pessoal, a lealdade e a inserção comunitária pesam tanto quanto — ou até mais do que — os currículos partidários formais.

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