OS TAVARES DE LYRA
A família Lyra Tavares, originária de Macaíba, no Rio Grande do Norte, ocupa lugar de relevo na história política, jurídica e intelectual do Estado e do país entre o final do século XIX e as décadas centrais do século XX.
Filhos de Feliciano Pereira de Lira Tavares e de Maria Rosalina de Lira Tavares, os irmãos João, Augusto e Luís construíram trajetórias singulares, mas convergentes no compromisso com a vida pública, a formação intelectual e o serviço ao Brasil.
Seus percursos, embora distintos em vocação e atuação, revelam uma herança familiar marcada pela participação ativa nos grandes debates políticos, administrativos e culturais de seu tempo.
João de Lyra Tavares, nascido em 23 de novembro de 1871, em Goiana, Pernambuco, destacou-se como uma personalidade inquieta, transitando com desenvoltura entre a política, o jornalismo, a contabilidade e o ativismo cívico. Filho de Feliciano Pereira de Lyra Tavares e de D. Maria Rosalina de A. Vasconcelos, realizou seus estudos secundários no Ginásio Rio-Grandense, em Natal, e desde cedo demonstrou inclinação para a vida intelectual e pública.
Casou-se com Rosa Amélia de Lyra Tavares e constituiu uma descendência igualmente notável, sendo pai de Paulo Lyra, Ministro da Fazenda, de Aurélio Lyra Tavares, Ministro da Guerra e Embaixador, e de Roberto Lyra, Ministro da Educação, o que reforça a projeção nacional de sua família.
No cenário político, João de Lyra Tavares construiu carreira sólida pelo Partido Republicano Conservador, sendo eleito deputado estadual em 1907 e, posteriormente, senador da República em três mandatos consecutivos, exercidos entre 1915 e 1930.
No Senado Federal, integrou a Comissão de Finanças, área na qual sua formação técnica e intelectual se revelou particularmente relevante. Paralelamente à atividade parlamentar, exerceu funções públicas como Promotor Público e Coletor Federal em Macaíba, evidenciando sua ligação permanente com a administração estatal.
Sua atuação intelectual foi igualmente expressiva, pois foi catedrático de Contabilidade da Academia de Altos Estudos do Rio de Janeiro e eleito Presidente do Conselho Perpétuo da Classe dos Contabilistas Brasileiros, tornando-se referência nacional nesse campo. No jornalismo, colaborou com o periódico A República, órgão do Partido Republicano do Rio Grande do Norte, e atuou como redator de importantes jornais nordestinos, como A União, da Paraíba, e A Gazeta da Tarde, de Recife.
João de Lyra Tavares destacou-se ainda como militante abolicionista e republicano. Enquanto estudante em Macaíba, integrou ativamente o Clube Abolicionista Padre Dantas e, mais tarde, participou da fundação do Clube Republicano Dom Pedro Velho, figurando entre os signatários do Manifesto Republicano de 1889.
Seu reconhecimento ultrapassou as fronteiras nacionais, tendo sido agraciado com a Medalha de Ouro da Société Académique d’Histoire Internationale de Paris. Foi sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e de diversos institutos congêneres nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, São Paulo, Ceará, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de integrar o Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas e a Sociedade Brasileira de Homens de Letras.
Sua produção bibliográfica é vasta e diversificada, abrangendo estudos históricos, econômicos, financeiros e políticos, com obras como História da Paraíba, Economia e Finanças do Estado, Apontamentos para a História Territorial da Paraíba e Pleito Eleitoral, a Contabilidade e sua Influência na Vida Comercial e na Administração Pública, entre muitas outras. Faleceu em 1938, deixando um legado intelectual de grande amplitude.
Augusto Tavares de Lyra, nascido em Macaíba em 25 de dezembro de 1872, é reconhecido como uma das mais altas expressões da historiografia brasileira de sua época, sem prejuízo de sua destacada atuação política e administrativa. Formou-se em Direito pela Faculdade do Recife em 1892 e, logo após a conclusão do curso, estabeleceu-se profissionalmente em Natal, onde abriu escritório de advocacia e lecionou no Atheneu Norte-rio-grandense a partir de 1893.
Ingressou na vida política como deputado estadual, cargo que exerceu entre 1894 e 1904, participando ativamente da Mesa da Câmara e da Comissão de Legislação e Justiça.
Em 25 de março de 1904, assumiu o governo do Rio Grande do Norte em um dos períodos mais críticos da história estadual, marcado por severas dificuldades financeiras e por uma estiagem devastadora. A seca de 1904 provocou a emigração de mais de quinze mil pessoas, impondo ao governo desafios humanitários e administrativos de grande magnitude.
A atuação de Augusto Tavares de Lyra foi pautada pela prudência e pelo critério, buscando minimizar os efeitos da calamidade por meio de medidas emergenciais e da solicitação de auxílio ao governo federal. Em 1906, renunciou ao cargo de governador para assumir o Ministério da Justiça e Negócios Interiores, prosseguindo sua trajetória como Ministro da Viação e Obras Públicas em 1914, durante o governo de Wenceslau Braz.
Representou o Rio Grande do Norte no Senado Federal entre 1910 e 1914 e, em 1918, foi nomeado para o Tribunal de Contas da União, onde atuou com destaque na Comissão de Assuntos Orçamentários.
Entretanto, é como historiador que Augusto Tavares de Lyra alcançou reconhecimento duradouro. Ao lado de Rodolfo Garcia e Tobias Monteiro, formou o que se convencionou chamar de “triunvirato potiguar” dos grandes intérpretes da História do Brasil, abrangendo os períodos colonial, imperial e republicano.
Getúlio Vargas chegou a defini-lo como uma “relíquia nacional”, expressão que sintetiza o prestígio intelectual de que gozava. Em 1953, teve seu nome inscrito no Livro do Mérito Nacional, honraria concedida a cidadãos que prestaram relevantes serviços ao país.
Destaca-se ainda sua contribuição decisiva à chamada Questão de Limites entre o Ceará e o Rio Grande do Norte, elaborada em parceria com Vicente de Lemos, estudo que forneceu a base documental utilizada por Rui Barbosa na defesa dos interesses potiguares.
Professor da Universidade do Rio de Janeiro e primeiro vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte em 1940, publicou trinta e seis obras, entre as quais se destacam História do Rio Grande do Norte, considerada sua maior realização intelectual, Domínio Holandês no Brasil e Notas Históricas sobre o Rio Grande do Norte (1500–1656). Faleceu no Rio de Janeiro em 2 de dezembro de 1958.
Luís Tavares de Lyra, o mais jovem dos irmãos, nasceu em Macaíba em 22 de junho de 1880 e dedicou integralmente sua vida profissional ao Direito e à magistratura no Rio Grande do Norte. Filho do coronel Feliciano Pereira de Lira Tavares e de Maria Rosalina de Lira Tavares, formou-se em Direito pela Faculdade do Recife em 1902.
Iniciou sua carreira como Promotor Público e, em 1906, foi nomeado Juiz de Direito da Comarca de São José do Mipibu, sendo posteriormente removido para Natal. Em 1912, ascendeu ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado, posição a partir da qual exerceu influência significativa na organização e no funcionamento do Judiciário potiguar.
Entre 1916 e 1919, acumulou as funções de Desembargador e Procurador-Geral do Estado, demonstrando elevada confiança institucional. Foi eleito Vice-Presidente do Tribunal de Justiça em três ocasiões distintas, nos anos de 1933, 1935 e 1936, e presidiu o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte por um período de cinco anos, desempenhando papel relevante na consolidação da justiça eleitoral no Estado.
Paralelamente à atuação jurisdicional, integrou o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, do qual foi sócio e vice-presidente, reforçando o vínculo entre a magistratura e a reflexão histórica e cultural. Luís Tavares de Lyra faleceu em Natal, em 30 de abril de 1962.
Os perfis biográficos de João, Augusto e Luís Tavares de Lira revelam, em conjunto, a força de uma família que marcou profundamente a vida pública potiguar e brasileira. Seja no parlamento, na administração, na historiografia ou no Judiciário, os irmãos Lira Tavares legaram um patrimônio intelectual e institucional que ultrapassa sua época e permanece como referência de compromisso cívico, erudição e serviço ao país.
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