A VIAGEM DE HENRY KOSTER PELO NORDESTE


A obra de Henry Koster constitui um dos testemunhos mais precoces, extensos e influentes sobre o Nordeste do Brasil nas primeiras décadas do século XIX, especialmente no período compreendido entre 1809 e 1815. 

Viajante anglo-português, nascido em Portugal, filho de comerciante inglês, Koster chegou ao Recife em dezembro de 1809, oficialmente motivado pela busca de um clima mais favorável ao tratamento de uma tuberculose. Sua permanência, apesar de tudo, ultrapassou largamente o propósito inicial, inserindo-o de maneira profunda na sociedade local, a ponto de tornar-se proprietário rural, senhor de engenho e observador privilegiado das dinâmicas sociais, econômicas e culturais do Brasil colonial em transição.

O contexto histórico de sua estada no país foi marcado por transformações estruturais decisivas, como a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, a consequente Abertura dos Portos às nações amigas e o fortalecimento da influência britânica no comércio e na política do Império português ultramarino. 

É nesse cenário que Koster produziu sua obra maior, Travels in Brazil, publicada em Londres em 1816, reunindo relatos de viagens pelas então províncias de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Ceará, Piauí e Maranhão. O livro alcançou ampla repercussão internacional, com traduções para diversos idiomas europeus, sendo publicado integralmente no Brasil apenas em 1942, na tradução de Luís da Câmara Cascudo, que lhe atribuiu o epíteto de “o exato Koster”, em razão da precisão de suas observações.

Koster via a si mesmo como pertencente simultaneamente a duas nações — Inglaterra e Portugal —, condição que lhe conferia, segundo sua própria percepção, uma posição singular de observador entre mundos distintos. Essa identidade híbrida, que a crítica contemporânea associa ao conceito de “homem branco hifenizado”, formulado por Mary Pratt, permitiu-lhe transitar com relativa facilidade entre ingleses, portugueses e brasileiros, ainda que seu olhar permanecesse profundamente ancorado em pressupostos eurocêntricos e nos interesses da burguesia liberal inglesa.

Um dos eixos centrais de seu relato é a concepção do Sertão como “fronteira da civilização”. Para Koster, os sertões do Norte representavam espaços liminares, situados entre a barbárie e o progresso, cuja superação dependeria da expansão do comércio livre, do capital e da adoção de costumes europeus, especialmente aqueles associados ao liberalismo econômico britânico. 

A Abertura dos Portos aparece, em seus relatos, como uma verdadeira “cornucópia” civilizatória, capaz de introduzir melhorias materiais, dinamizar a economia e acelerar a integração do Brasil aos circuitos do capitalismo internacional. Ao mesmo tempo, o autor revela um conflito íntimo, manifestando o receio de que a vida nos trópicos o conduzisse a um estado de “semi-selvageria”, evidenciando a tensão entre o ideal civilizatório europeu e a atração exercida pela liberdade de costumes e pelo poder social que encontrou na colônia.

Nesse sentido, Koster desempenhou, de fato, o papel de observador atento dos interesses britânicos, funcionando como verdadeiro mapeador das oportunidades econômicas, dos hábitos locais e das relações de poder. Seus textos documentam minuciosamente a penetração das mercadorias inglesas no cotidiano colonial, sobretudo dos tecidos manufaturados, que rapidamente substituíram os produtos portugueses. 

Sua análise política das autoridades coloniais é igualmente orientada por critérios utilitários, no caso dos governadores favoráveis ao comércio britânico que são elogiados, enquanto aqueles considerados hostis aos interesses ingleses são classificados como despóticos. No Maranhão, por exemplo, Koster aborda a importância do comércio de algodão com a Inglaterra, cuja exportação superava amplamente a destinada a outras nações.

O olhar de Koster sobre os povos indígenas é um dos aspectos mais problemáticos de sua obra. Ele os descreve como seres quase animalescos, ainda que reconheça, de modo contraditório, sua importância prática como guias e auxiliares de viagem. Ao adotar a distinção colonial entre “caboclos” — indígenas considerados domesticados — e “tapuias”, classificados como selvagens, Koster reforça a lógica do colonialismo. 

Mesmo quando manifesta certa piedade diante da condição de subjugação indígena, sua incapacidade de reconhecer o saber técnico desses povos é evidente, reduzindo suas habilidades de navegação territorial a um suposto instinto natural.

A análise da escravidão ocupa lugar central e ambíguo em sua obra. Como senhor de engenho e proprietário de escravos em Jaguaribe, Pernambuco, Koster escreveu a partir de uma experiência direta, o que conferiu grande autoridade a seus relatos. Ele sustentou a tese de que a escravidão no Brasil seria mais “branda” do que aquela praticada nas colônias britânicas, destacando elementos como os numerosos feriados religiosos, a possibilidade de acumular pecúlio e a suposta facilidade de alforria. 

Essa visão, posteriormente apropriada por intelectuais como Gilberto Freyre, contribuiu para a construção do mito da democracia racial brasileira. No entanto, pesquisas posteriores demonstraram que muitas de suas afirmações, especialmente sobre a manumissão, constituíam equívocos históricos ou generalizações indevidas.

Apesar disso, Koster não deixou de criticar a escravidão como sistema, qualificando-a como um “terrível flagelo” e um obstáculo à civilização. Em 1816, publicou separadamente o ensaio On the Amelioration of Slavery, no qual defendia o fim do tráfico negreiro e uma abolição gradual da instituição. 

Essa separação editorial é interpretada como uma estratégia retórica para fortalecer seus argumentos no debate abolicionista britânico, utilizando Travels in Brazil como fonte supostamente neutra e desinteressada. Mesmo assim, o próprio autor admite sua ambiguidade moral, confessando que, embora consciente dos males da escravidão, apreciava o poder e o status que a posse de escravos lhe conferia.

Do ponto de vista social, Koster descreve uma sociedade rigidamente hierarquizada, dominada por senhores de engenho e Capitães-Mores que exerciam autoridade quase feudal. Ao mesmo tempo, observa uma relativa fluidez racial, incomum quando comparada a outras colônias, resultado da escassez de população europeia e da intensa miscigenação. 

Ele analisa com atenção a posição dos mulatos, negros livres e indígenas, destacando a existência de regimentos militares próprios para homens de cor e certas possibilidades de ascensão social, ainda que limitadas e condicionadas à negação simbólica da origem racial.

A economia nordestina é retratada com grande detalhamento, abrangendo o ciclo do açúcar, o cultivo do algodão, a produção de farinha de mandioca e a pecuária sertaneja. Koster descreve minuciosamente o funcionamento dos engenhos, os métodos agrícolas rudimentares, os riscos do trabalho escravo e a rentabilidade da produção de aguardente. 

No Sertão, exalta a coragem e a hospitalidade dos vaqueiros, ao mesmo tempo em que os acusa de astúcia nos negócios. O comércio internacional, especialmente com a Inglaterra, aparece como eixo estruturante da economia regional, e a Abertura dos Portos é apresentada como um processo irreversível.

Suas críticas à administração colonial são severas. Denuncia a corrupção da justiça, a arbitrariedade do sistema de recrutamento militar, a opressão tributária sobre as camadas mais pobres e o excesso de funcionários públicos. Fernando de Noronha é descrita como espaço de tirania absoluta, e a justiça colonial, como um sistema no qual a punição podia ser comprada e a inocência ignorada.

Ao concluir sua obra, Koster expressa uma visão otimista quanto ao futuro do Brasil, que via como um prolongamento do tronco europeu destinado a tornar-se uma grande nação. Esse futuro, contudo, estaria condicionado à implementação de reformas profundas na justiça, no sistema tributário e na administração pública. 

Seu olhar, embora minucioso e detalhista, permanece o olhar do império, um olhar que classifica, hierarquiza e julga, sem reconhecer plenamente a alteridade e a humanidade dos povos colonizados, especialmente dos indígenas, aos quais o direito à fala foi sistematicamente negado.

Em resumo, os relatos de Henry Koster permanecem como fonte indispensável para a compreensão do Nordeste brasileiro no início do século XIX, mas exigem uma leitura crítica, consciente de suas contradições, de seus silêncios e de sua função histórica enquanto instrumento de observação, legitimação e projeção dos interesses do imperialismo britânico.


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