GENEALOGISTA TRAJANO PIRES
O Prof. Dr. Trajano Pires da Nóbrega Neto possui uma sólida trajetória acadêmica na área de Matemática, iniciada com o bacharelado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em 1980. Deu prosseguimento aos seus estudos avançados no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica da Universidade Estadual de Campinas (IMECC - UNICAMP), onde obteve o título de mestre em 1984 e, posteriormente, o de doutor em 1991.trajano.nobrega@unesp.br.
A obra 'A Família Nóbrega', publicada em 1956 por Trajano Pires da Nóbrega, seu avô, constitui um dos mais extensos e minuciosos estudos genealógicos já dedicados a uma família do sertão nordestino, com especial incidência sobre a Paraíba e o Rio Grande do Norte.
Mais do que uma simples enumeração de nomes, datas e vínculos de parentesco, o livro apresenta-se como um verdadeiro painel histórico e social, no qual a trajetória da família Nóbrega se confunde com a própria formação do sertão, seus conflitos políticos, alianças matrimoniais, tradições orais e episódios de violência, heroísmo e poder local.
O autor identifica como figura central de um dos mais amplos ramos familiares Manoel Alves da Nóbrega, casado por volta de 1765 com D. Maria José de Medeiros, mas deixa claro, ao longo de sua investigação, que a presença dos Nóbrega no Nordeste é anterior e mais diversificada, abrangendo linhagens que não descendem diretamente desse casal.
Trajano Pires da Nóbrega inicia sua narrativa situando a origem da família em Portugal, mencionando o antigo solar no Castelo de Nóbrega, nas proximidades do antigo Reino da Galiza. O brasão familiar é descrito como ostentando um campo de ouro com quatro palas de vermelho, sobre o qual, em algumas versões, figura um açor de preto, símbolo de nobreza e distinção.
A partir dessa matriz europeia, o autor rastreia a presença precoce dos Nóbrega no Brasil, sobretudo na Capitania da Paraíba, onde o sobrenome aparece já no século XVI. Em 1589, apenas quatro anos após a fundação da cidade da Paraíba, Baltazar da Nóbrega exercia o cargo de escrivão da Fazenda; no final do século XVIII, Luís Álvares da Nóbrega integrou, como vereador mais idoso, uma junta governativa provisória; durante a Revolução Republicana de 1817, Francisco Antônio da Nóbrega, então diretor de índios na Baía da Traição, conduziu mais de uma centena de indígenas para saudar o governador revolucionário, enquanto José Elias da Nóbrega exercia funções de escrivão na mesma localidade; já em 1821, José Ferreira da Nóbrega figura entre os signatários de uma representação contra os abusos de um desembargador, demonstrando o engajamento político da família em momentos decisivos da história regional.
No centro do estudo genealógico, contudo, está Manoel Alves da Nóbrega, filho do mineiro José da Nóbrega e de Isabel Ferreira da Silva. Estabelecido no sertão paraibano, na região de Santa Luzia, Manoel Alves contraiu matrimônio com D. Maria José de Medeiros, união que se tornou o marco fundador de um vastíssimo tronco familiar.
Dessa aliança nasceram descendentes como José Ferreira da Nóbrega, João Alves da Nóbrega e Francisco Alves de Maria Nóbrega, cujas ramificações se expandiram pelo sertão da Paraíba e avançaram para o território do atual Rio Grande do Norte, dando origem a numerosas famílias de projeção social, política e econômica. O casamento com Maria José de Medeiros não apenas consolidou a posição social de Manoel Alves, como também selou uma das mais duradouras alianças genealógicas do sertão, entrelaçando definitivamente os Nóbrega aos Medeiros.
A investigação de Trajano Pires da Nóbrega, no entanto, revela um dado fundamental: nem todos os Nóbrega do Nordeste descendem de Manoel Alves. O autor identifica, por exemplo, um ramo numeroso e distinto originado em Mamanguape, cujo tronco é o casal Pedro Correia da Nóbrega e Ana da Nóbrega. A descendência desse núcleo espalhou-se por Serra Redonda, Campina Grande e João Pessoa, configurando uma linhagem paralela.
A partir dessa constatação, o autor levanta hipóteses acerca de uma possível origem comum desses ramos, sugerindo que Pedro Correia da Nóbrega, assim como outros Nóbregas antigos da Paraíba — Luís Álvares, Francisco Antônio e José Elias — poderiam ser descendentes do mineiro José da Nóbrega, pai de Manoel Alves, o que os tornaria parentes, ainda que não integrantes do mesmo tronco direto.
Ao longo da obra, Trajano Pires da Nóbrega não esconde as dificuldades enfrentadas na realização de sua pesquisa, chegando a confessar, logo nas páginas iniciais, o sentimento de estar envolvido em uma tarefa de dimensão quase trágica, “muito acima de sua capacidade”. Tal confissão confere ao livro um caráter pessoal e metodológico singular, pois o autor compartilha com o leitor não apenas os resultados, mas também os impasses, as lacunas documentais e as controvérsias surgidas durante o trabalho.
Sua investigação baseou-se em extensa consulta a fontes primárias, incluindo cartórios de Santa Luzia, Patos, Pombal, Souza, Mamanguape, Jardim do Seridó e Acari, além de arquivos paroquiais das igrejas matrizes de Souza e Santa Luzia, bem como registros da Santa Casa de Misericórdia de João Pessoa. Em alguns casos, como o de Mamanguape, o acesso aos livros eclesiásticos não foi possível, obrigando o autor a recorrer à tradição oral e a documentos indiretos.
Entre os pontos controversos enfrentados pelo pesquisador está a identidade de Córdula de Maria Nóbrega, sua bisavó. Embora a tradição familiar a vinculasse aos Pires Ferreira de Souza, os indícios documentais levantam a possibilidade de ela pertencer ao ramo Monteiro da Mota, ligado à célebre Casa da Torre.
Outro desafio recorrente foi a homonímia, como no caso de Anastácio Alves da Nóbrega, em que o autor precisou recorrer à correspondência com outros genealogistas para concluir que indivíduos de mesmo nome, pertencentes a ramos distintos, não se tratavam da mesma pessoa, apesar da impressionante coincidência nominativa.
A genealogia dos Nóbrega, conforme demonstrada na obra, encontra-se profundamente entrelaçada a outras famílias tradicionais do sertão, formando uma complexa rede de alianças matrimoniais. Além dos Medeiros, surgem com frequência os Dantas Correia, Valcácer, Wanderley, Zenaide, Albuquerque, Pires Ferreira, Arruda Câmara, Bulhões, entre muitas outras.
O autor dedica especial atenção à origem dos Medeiros, mencionando os irmãos portugueses Rodrigo de Medeiros Rocha (1709-1757) e Sebastião de Medeiros Mattos (1716-1810), e relata uma antiga lenda familiar segundo a qual esses irmãos teriam se casado com Apolônia Barbosa Valcácer e Antônia de Amorim Valcácer, netas de uma índia chamada Custódia de Amorim Valcácer.
Segundo a tradição, Custódia teria desposado Pedro Ferreira das Neves, o célebre “Pedro Velho”, após sua família indígena tê-lo acolhido e cuidado quando ferido em combate contra os holandeses. Trajano Pires da Nóbrega inclina-se a considerar plausível essa ascendência indígena, sugerindo que Custódia poderia ser filha de D. Pedro Valcácer, referido como “Governador dos Cariris”.
A obra também se destaca por apresentar versões densas de episódios históricos protagonizados por membros da família. Entre eles, sobressai a dramática saga de Liberato Cavalcante de Carvalho Nóbrega, que exemplifica com clareza as violentas disputas políticas do sertão oitocentista.
Em 1866, durante o recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai, o chefe liberal de Teixeira, Dr. Manoel Dantas Correia de Góis, mandou prender adversários políticos, entre os quais Liberato, que foi detido por ordem do delegado Ildefonso Aires, seu tio por afinidade.
Humilhado e encarcerado, Liberato foi libertado quando seu irmão, conhecido como Franco, invadiu a vila de Teixeira à frente de um grupo armado, tomou a cadeia e soltou todos os presos. Dez anos depois, em 24 de março de 1876, o Capitão José Dantas Correia de Góis, irmão do chefe liberal, dirigiu-se à fazenda de Liberato com a intenção de prendê-lo sem respaldo legal.
Ausente no momento da chegada, Liberato organizou uma emboscada com o auxílio de seu vaqueiro e, durante a retirada do grupo, José Dantas foi morto a tiros. A tradição oral registra, de forma quase simbólica, que o capitão levava consigo uma rede destinada a transportar o corpo de Liberato, mas acabou sendo conduzido nela após a morte. O episódio intensificou a perseguição ao fazendeiro, que passou a alinhar-se politicamente ao partido conservador, em oposição aos Dantas, identificados com o liberalismo.
Outras versões igualmente reveladoras pontuam a obra, como a de João Alves da Nóbrega, que, enquanto estudante no Recife, apaixonou-se por D. Joana Francisca de Oliveira, integrante de uma influente família de Goiana. Diante da recusa ao pedido formal de casamento, João Alves recorreu ao rapto consentido, desposando-a posteriormente em Patos.
O livro também registra a participação de diversos Nóbregas na Revolução de 1817, entre eles Antônio Ferreira da Nóbrega, de Souza, e o Padre José Ferreira da Nóbrega, de Pombal, ambos presos em razão de seu envolvimento com o movimento republicano.
A galeria de personagens ilustres é extensa e inclui magistrados, políticos, religiosos e intelectuais que marcaram a história regional, como o juiz e deputado Dr. Francisco de Gouveia Nóbrega, o juiz de direito Dr. Fenelon Ferreira da Nóbrega, o desembargador José Flósculo da Nóbrega, o orador e político republicano Dr. Janúncio da Nóbrega Filho, o Coronel Abdon Felinto da Nóbrega, influente chefe político de Santa Luzia, e o Cônego Joaquim Alves Machado, vigário de Patos por mais de meio século.
O próprio autor, Trajano Pires da Nóbrega, agrônomo de formação, integra essa linhagem, tendo exercido cargos públicos de destaque, como as prefeituras de Soledade e da capital paraibana.
Do ponto de vista estrutural, 'A Família Nóbrega' apresenta uma organização rigorosa, dividindo a descendência por ramos, geralmente a partir de cada filho de Manoel Alves da Nóbrega e Maria José de Medeiros. O autor adota um sistema de nomenclatura genealógica que identifica com precisão as gerações, utilizando siglas como F (filho), N (neto), Bn (bisneto), Tn (trineto), Qn (quadrineto), Pn (pentaneto) e Sn (sextoneto), permitindo ao leitor acompanhar com clareza a progressão dos galhos.
Para cada indivíduo, sempre que possível, são registrados nomes completos, datas de nascimento, casamento e óbito, filiação, profissão, local de residência, cargos públicos e episódios biográficos, conferindo à obra não apenas valor genealógico, mas também relevância histórica, social e cultural.
Em síntese, o trabalho do avô de Trajano Pires da Nóbrega Neto ultrapassa os limites da genealogia tradicional e se afirma como uma verdadeira crônica do sertão nordestino, na qual a história de uma família se entrelaça de forma indissociável com os grandes processos políticos, sociais e culturais da região.
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