A HISTÓRIA DA FAMÍLIA SUASSUNA
Essa prosa resulta de um cuidadoso e persistente trabalho de pesquisa genealógica conduzido com o propósito de levar ao conhecimento dos descendentes, hoje dispersos por diversas regiões do Brasil e do exterior, a origem, a formação e a trajetória de seus antepassados.
Trata-se de um esforço de preservação da memória familiar ancorado em relatos orais, registros iconográficos e reflexões históricas, cuja base foi documentada por Natércia Suassuna, uma descendente genealogista.
Paralelamente, encontra-se em preparação a segunda edição do livro de genealogia da família, trabalho conduzido por Nei Suassuna e Raquel, que amplia de forma significativa a primeira edição publicada há cerca de vinte e quatro anos pelo professor Raimundo Suassuna, incorporando novas informações, documentos e fotografias reunidas por meio de uma ampla pesquisa colaborativa entre os membros da família.
Um dos eixos centrais dessa investigação consiste no esclarecimento da verdadeira origem do sobrenome Suassuna, frequentemente envolta em equívocos transmitidos ao longo das gerações. Durante muito tempo, muitos membros da família acreditaram que o nome derivaria diretamente dos Cavalcanti de Albuquerque de Pernambuco, proprietários do célebre Engenho Suassuna, cujo titular, conhecido como “Coronel Suassuna”, era de fato parente, mas não o ancestral direto da linhagem principal aqui estudada.
A pesquisa demonstra que a adoção do sobrenome ocorreu no Rio Grande do Norte, por iniciativa de Mariana, potiguar de Porto Alegre, descendente dos Cavalcanti de Albuquerque, casada com Raimundo Francisco de Sales, pernambucano que se transferira para terras potiguares.
Admiradora do nome Suassuna e desejosa de homenagear o parente conhecido como Coronel Suassuna, Mariana pediu ao marido que o sobrenome fosse atribuído aos filhos do casal, pedido que foi aceito. Assim, o primeiro descendente a receber oficialmente o nome foi Alexandrino Felício Suassuna, nascido em 1824, considerado o verdadeiro fundador da família Suassuna tal como se consolidou posteriormente.
Seus irmãos foram Francisca, cujo destino se perdeu na memória familiar, e Maria Perpétua de Jesus, conhecida como Bizinha, cuja descendência se espalhou pelo Ceará e pelo Rio Grande do Norte.
Alexandrino Felício Suassuna viria a estabelecer-se em Catolé do Rocha, na Paraíba, onde se dedicou à criação de gado e ao cultivo do algodão, afirmando-se como fazendeiro e fixando as bases materiais e simbólicas da família na região. Era descrito como homem calmo, sereno e equilibrado, traço que a tradição atribui à influência de sua mãe, Mariana, em contraste com o temperamento mais forte e impetuoso de seu pai, Raimundo Francisco de Sales, frequentemente lembrado como “brabo”, avesso a desaforos, embora muito respeitado e querido em seu meio.
Alexandrino casou-se inicialmente com Isabel, com quem teve um filho que faleceu aos dezenove anos enquanto cursava o seminário. Viúvo, contraiu novo matrimônio com Joana Francisca Pessoa de Vasconcelos, sobrinha de sua primeira esposa, união que marca o verdadeiro início da ampla expansão da família Suassuna em Catolé do Rocha e arredores.
Da confluência dessas duas linhagens — a paterna, dos Sales, e a materna, dos Pessoa de Vasconcelos — formou-se uma herança marcada por traços de personalidade, valores e narrativas singulares.
No ramo paterno, destaca-se Raimundo Francisco de Sales, que viera de Pernambuco acompanhando um tio, seu padrinho, posteriormente nomeado capitão-mor em uma capitania do Rio Grande do Norte, figura de temperamento forte, mas dotada de liderança e prestígio social, enquanto Mariana, sua esposa, é lembrada como mulher tranquila, ponderada e afetuosa.
No ramo materno, sobressai Joana Pessoa de Vasconcelos, carinhosamente chamada de “Mãe Joaninha”, matriarca dinâmica e profundamente religiosa, responsável por educar os filhos na fé católica, cultivar a união familiar e fazer da casa o centro das festas, das celebrações e da convivência alegre, tornando-se referência afetiva e moral para as gerações seguintes.
Essa ramificação materna guarda ainda uma das histórias mais marcantes e admiradas da tradição familiar, protagonizada pelo padre Felipe José Pessoa de Vasconcelos, ancestral direto e pai de Benevenuto, avô de Joana. Filho de um chefe político de Goiana, em Pernambuco, Felipe apaixonou-se ainda adolescente, aos quinze anos, por Maria Sancha Benigna, de apenas treze, filha do adversário político de seu pai.
Para impedir a união, o jovem foi enviado ao seminário de Olinda, onde seguiu a carreira eclesiástica. Anos depois, já ordenado sacerdote e após celebrar sua primeira missa em Goiana, reencontrou o amor da juventude e, desafiando convenções sociais e religiosas, fugiu com Maria Sancha Benigna a cavalo.
O casal estabeleceu-se em um lugar chamado Retiro, na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, onde, embora impedidos de contrair matrimônio formal, tiveram sua união abençoada na igreja de Pombal. Padre Felipe continuou a exercer funções sacerdotais, celebrando missas e realizando batismos, ao mesmo tempo em que constituía e criava sua família, gesto que a tradição familiar evoca com orgulho, admiração e profundo respeito pela coragem e pela fidelidade ao sentimento amoroso.
A herança cultural da família é ainda enriquecida por uma notável conexão com a história artística do país, uma vez que Ana Francisca Xavier de Figueiredo, avó de Joana, era irmã de Daniel Granjeiro, pai do renomado pintor paraibano Pedro Américo. Essa ligação é frequentemente apontada como uma possível explicação para a inclinação artística presente em diversos membros da família, incluindo Ariano Suassuna e Nei Suassuna, cuja produção intelectual e estética dialoga intensamente com as tradições culturais do Nordeste.
A geografia da família Suassuna está profundamente vinculada a espaços que se tornaram marcos de sua memória coletiva. Catolé do Rocha é reconhecida como o berço da família, local onde Alexandrino e Joana se fixaram e de onde partiram os ramos que se espalharam por outras regiões.
A Fazenda Volta, propriedade do patriarca, constituiu-se no principal lar do casal e no centro das grandes reuniões familiares, tendo sido o local de nascimento dos sete primeiros filhos. Posteriormente, a família passou a residir no conhecido Casarão do Suassuna, na cidade de Catolé do Rocha, onde nasceram os três últimos filhos, entre eles João Suassuna, futuro pai de Ariano Suassuna, e Adália, avó de Natércia já citada acima.
Anos mais tarde, João Suassuna, já como governador da Paraíba, transformou o casarão no Grupo Escolar Antônio Gomes de Arruda Barreto, edifício histórico cuja posterior demolição, no espaço hoje ocupado pela prefeitura municipal, é lamentada como uma perda irreparável do patrimônio material e simbólico da cidade.
Ao longo das gerações, consolidaram-se traços culturais e comportamentais que passaram a ser reconhecidos como característicos da família Suassuna, entre eles a alegria expansiva, o gosto por festas e encontros, a forte tradição musical, com a presença de instrumentistas de clarinete, pistão, sanfona, violão e canto, o prazer de contar histórias e “causos”, magistralmente exemplificado na obra e na oralidade de Ariano Suassuna, a profunda devoção católica transmitida pela matriarca Joana e a permanente ligação com a terra, expressa na tradição de proprietários rurais e fazendeiros, iniciada por Alexandrino e mantida por descendentes, inclusive por Ariano, que possuía fazenda em Taperoá, cidade que considerava sua verdadeira terra natal.
Com o intuito de celebrar essa herança e fortalecer os laços entre os descendentes, vem sendo organizado grandes encontros da família Suassuna em Catolé do Rocha, idealizado e conduzido por uma comissão de mulheres da família — Adriana, Danila, Fabíula, Galba, Gláucia, Zaura, conhecida como Zazá, Janara, chamada Jane, e a grande protagonista dos registros Natércia Suassuna —, que culminará em solenidades e homenagens públicas.
Durante os eventos, habitualmente sediados na Câmara de Vereadores, realizam-se sessões especiais em memória de Ariano Suassuna. Numa destas ocasiões, notabilizou-se a entrega do título de Cidadão Catoleense a seu filho, Manuel Dantas Suassuna, que recebe a honraria em nome do pai, uma vez que o escritor não pôde ser agraciado em vida por motivos de saúde.
As solenidades prestam, simultaneamente, tributos a outros membros de relevo da celebrada família. A exemplo de Nei Suassuna, reconhecido por sua expressiva trajetória no Senado Federal e por suas contribuições que consolidaram a alcunha de “Senador Trator”; e a Raimundo Suassuna, pai de Nei e autor do primeiro compêndio genealógico da família, cuja dedicação ao magistério e à educação é amplamente reverenciada.
Ariano Suassuna, figura central desse legado, nasceu em 1927, no Palácio do Governo da Paraíba, durante o mandato de seu pai, João Suassuna, como presidente do estado. Criado no sertão, em Taperoá, construiu uma trajetória intelectual e artística singular, casou-se com Zélia de Andrade Lima e teve seis filhos: Joaquim, Maria das Neves, Manuel, Isabel, Mariana e Ana Rita.
Idealizador do Movimento Armorial, Ariano buscou criar uma arte erudita enraizada nos elementos da cultura popular nordestina, dando origem a grupos como o Quinteto Armorial, a Orquestra Romançal e o Balé Armorial, além de conceber um alfabeto estilizado inspirado nos ferros de marcar gado, entre eles o de seu ancestral Raimundo Sales.
Escritor consagrado, foi também compositor, músico, tocava violão e piano, além de pintor, tendo recebido inúmeras homenagens em vida e após sua morte. Foi membro das Academias Brasileira, Pernambucana e Paraibana de Letras, tema de desfiles carnavalescos de escolas de samba e blocos tradicionais, e teve seu nome atribuído a importantes espaços culturais, como o Centro Cultural Ariano Suassuna, o Teatro A Pedra do Reino, no Centro de Convenções da Paraíba, e o Teatro Ariano Suassuna do Colégio Pio X.
Sua imagem foi eternizada em esculturas e obras de arte, entre elas a escultura no Parque Solon de Lucena, em João Pessoa, a estátua de bronze em tamanho natural na entrada do Teatro A Pedra do Reino, esculpida por Jurandi Maciel com base no neto Rafael Suassuna, e o quadro “O Universo de Ariano Suassuna”, de Flávio Tavares, doado pelo próprio Ariano à Academia Paraibana de Letras.
Toda essa retórica converge para a consciência da importância da memória genealógica como patrimônio imaterial, cuja preservação é indispensável para que as gerações futuras compreendam quem foram seus antepassados e quais caminhos percorreram.
Esse ideal encontra expressão nas palavras de um bisavô de Natércia Suassuna, professor, que costumava afirmar ser necessário transmitir integralmente às gerações que sucedem a história das gerações que passam, pois os vindouros devem saber o que fomos e o que fizemos.
É sob essa convicção que se sustentam o trabalho de pesquisa, os livros, os vídeos e os encontros familiares, assegurando que a história da família Suassuna permaneça viva, conhecida e respeitada ao longo do tempo.

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