MANOEL JAIRO BEZERRA (1920-2010)

 


destacou-se como uma das figuras mais relevantes do ensino de Matemática no Brasil ao longo do século XX, consolidando uma carreira marcada pela excelência acadêmica, pela atuação em instituições de grande prestígio e pelo reconhecimento oficial de sua competência como especialista em metodologia de ensino. 

Natural do Rio Grande do Norte, filho de Antônio Bezerra e Beatriz Bezerra, casou-se com Vera Zaremba Bezerra e construiu sua trajetória intelectual principalmente no Rio de Janeiro, onde exerceu funções docentes, administrativas e consultivas de elevada responsabilidade. 

Graduou-se em Matemática pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), integrando uma das primeiras turmas dessa instituição, na qual ingressou em 1941 e concluiu seus estudos em 1943, em um momento decisivo para a institucionalização do ensino superior de Matemática no país.

Sua atuação docente foi ampla e diversificada, abrangendo diferentes níveis e modalidades de ensino. Lecionou no Instituto de Educação da Guanabara, onde exerceu a coordenação da cadeira de Matemática, bem como na Escola Normal Carmela Dutra, no Colégio Pedro II, no Ginásio Municipal Clóvis Monteiro, no Colégio Naval, no Colégio de Aplicação da FNFi, na Universidade Católica de Petrópolis, na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica, no Curso de Técnica de Ensino do Exército e no Curso da Universidade de Cultura Popular. 

Essa multiplicidade de espaços institucionais revela não apenas a amplitude de sua influência, mas também a versatilidade de sua prática pedagógica, capaz de dialogar com diferentes públicos e demandas formativas.

O prestígio alcançado por Manoel Jairo Bezerra é amplamente documentado em sua ficha funcional, preservada no acervo do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ), na qual constam diversas nomeações oficiais que atestam a confiança do poder público em sua expertise. 

Em 1961, foi nomeado pelo Secretário de Educação e Cultura da Guanabara para integrar o grupo responsável pela reorganização do Ensino Médio. Em março de 1964, foi designado pelo governador Badger da Silveira para o cargo de Diretor de Divulgação do Ensino Normal e, no mesmo período, conquistou o primeiro lugar em concurso público que lhe garantiu a nomeação como Professor Catedrático do Curso Normal, na área de Metodologia do Cálculo, assumindo efetivamente a cátedra em 15 de outubro de 1965. 

Em 1969, integrou a banca examinadora de Matemática do concurso de habilitação do Curso de Formação de Professores para o Ensino Normal, e, em 1970, recebeu convite do governo dos Estados Unidos para uma viagem de estudos e intercâmbio cultural. Aposentou-se pelo Instituto de Educação do Rio de Janeiro em 7 de abril de 1986, encerrando formalmente uma carreira que se estendeu por mais de quatro décadas de dedicação ao magistério.

Paralelamente à atuação docente e administrativa, Bezerra construiu uma produção intelectual vasta e consistente, composta por dezenas de livros, artigos e materiais didáticos voltados tanto para estudantes quanto para professores em formação inicial e continuada. 

Entre suas obras mais conhecidas figuram 'Questões de Exames de Admissão', publicada em 1953, voltada à preparação de candidatos para exames seletivos; Didática Especial de Matemática, de 1958, considerada uma obra fundamental no campo da metodologia do ensino; e os influentes Cadernos MEC de Álgebra (1966), Aritmética (1968) e Geometria (1970), nos quais os exercícios são organizados de modo progressivo, sugestivo e articulado, conduzindo o aluno do concreto ao abstrato. 

Além dos livros, produziu artigos científicos em revistas pedagógicas e elaborou apostilas para o Curso do Artigo 99 da Universidade de Cultura Popular, algumas das quais foram publicadas em jornais de circulação nacional. Parte significativa desse acervo encontra-se atualmente disponível no Repositório de Conteúdo Digital da Universidade Federal de Santa Catarina, o que evidencia a permanência e a atualidade de sua contribuição.

Manoel Jairo Bezerra foi também uma figura central na difusão, no Brasil, dos princípios do Movimento da Matemática Moderna. No Instituto de Educação da Guanabara, coordenou cursos de Matemática Moderna destinados à formação complementar de professores, incorporando em suas obras elementos característicos desse movimento, como a valorização das estruturas algébricas, da teoria dos conjuntos, de noções topológicas e das transformações geométricas. Essa adesão não se deu de forma acrítica ou meramente formal, mas foi mediada por uma preocupação constante com a inteligibilidade do conteúdo e com a adequação didática às realidades do ensino básico.

Sua principal contribuição pedagógica, amplamente reconhecida por seus pares e pelas instâncias governamentais, reside na elaboração de um método sistemático e inovador para o ensino de frações, desenvolvido e aperfeiçoado desde o início da década de 1960. 

Esse método fundamenta-se no uso de material didático manipulável, denominado por ele de “Blocofração”, concebido como um poderoso recurso motivador e facilitador da aprendizagem. Conforme o próprio Bezerra assinalou, tais materiais constituem “atratores de atenção extremamente úteis para a eficiência do ensino, além de uma fonte poderosa de elementos e recursos motivadores”. 

O Blocofração é composto por dois grupos de peças: o Grupo A, formado por seis cubos azuis claros que representam unidades inteiras e quatro paralelepípedos azuis escuros correspondentes às metades, e o Grupo B, constituído por quatro paralelepípedos brancos representando os quartos e oito cubos correspondentes aos oitavos.

A metodologia proposta por Bezerra organiza-se em uma sequência rigorosamente estruturada, que parte da manipulação concreta dos objetos para alcançar a abstração conceitual. Inicialmente, são trabalhadas noções gerais de quantidade, ordem, unidade, denominador e numerador; em seguida, introduzem-se os conceitos de simplificação de frações e de redução ao mesmo denominador; posteriormente, exploram-se aplicações como a comparação entre frações; avançando-se, então, para o estudo dos números mistos, sua transformação em frações impróprias e a extração de inteiros. 

O tratamento dos números mistos e das frações impróprias ocupa lugar central em sua proposta, sendo considerado elemento decisivo para a compreensão sólida do tema.

No ensino das operações com frações, Bezerra propõe situações concretas e problematizadoras. Ao tratar, por exemplo, da soma de um número inteiro com uma fração, como em 3 + ½, orienta o professor a solicitar que o aluno retire do material três unidades inteiras e um bloco correspondente à metade, conduzindo-o a verbalizar o resultado como três e meio. 

Complementarmente, recorre a questionamentos que estimulam o raciocínio e a reflexão conceitual, tais como se toda fração cujo numerador seja maior ou igual ao denominador é necessariamente imprópria, se determinadas frações impróprias podem ser equivalentes a números inteiros ou se a simplificação de uma fração só é possível quando seus termos admitem divisor comum.

Sob o ponto de vista teórico, sua obra pode ser analisada à luz da distinção entre os chamados “saberes a ensinar” e os “saberes para ensinar”. O primeiro refere-se ao conteúdo matemático propriamente dito, no caso, o conhecimento sobre frações; o segundo diz respeito aos instrumentos, métodos e estratégias didáticas mobilizados pelo professor para tornar esse conteúdo ensinável. 

Na proposta de Bezerra, o conteúdo conceitual das frações constitui o saber a ensinar, enquanto a sistematização do uso do Blocofração e as orientações metodológicas associadas configuram o saber para ensinar. Ao integrar de forma coerente e duradoura esses dois domínios, Bezerra produziu um novo saber pedagógico, aplicável tanto à formação inicial quanto à formação continuada de professores, e mantido com notável consistência ao longo de décadas.

O reconhecimento de sua trajetória manifesta-se de modo inequívoco em diversas instâncias. Do ponto de vista governamental, foi designado pelo Secretário de Educação e Cultura Flexa Ribeiro, durante o governo de Carlos Lacerda, para elaborar os programas mínimos de Metodologia do Cálculo destinados ao Curso Normal, além de ter ocupado cargos de direção e integrado comissões estratégicas de reorganização do ensino. 

No âmbito da imprensa e do reconhecimento de seus pares, o Jornal dos Sports, em 1978, destacou os relevantes serviços por ele prestados à causa da educação, mencionando suas dezenas de obras técnicas e pedagógicas; recebeu a Medalha Anchieta por seus serviços ao ensino e teve ampla divulgação de suas ideias em eventos e notícias sobre o uso de material didático, veiculadas, entre outros periódicos, no Diário de Pernambuco e no Correio da Manhã no final da década de 1950 e início da década de 1960.

Em síntese, a densidade de sua produção intelectual, a relevância de suas nomeações oficiais, o reconhecimento público e acadêmico de sua atuação e a solidez teórica e prática de seu método pedagógico consolidam Manoel Jairo Bezerra como um expert fundamental para a história do ensino da Matemática no Brasil, cuja contribuição permanece como referência para a formação docente e para a reflexão sobre os modos de ensinar e aprender matemática.

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