ALGUMA PRATA DA CASA
Sobre a obra 'Alguma Prata da Casa' podemos afirmar que a mesma insta tratar de um trabalho que conjuga erudição, clareza expositiva e acuidade crítica, qualidades reiteradamente reconhecidas pela recepção especializada, que o consagra como contribuição rica e indispensável à memória literária regional.
Estruturada em capítulos de natureza ensaística, a obra percorre distintas dimensões da literatura potiguar, desde a discussão conceitual acerca do que se pode compreender como “autor potiguar” até a análise de textos e autores considerados clássicos, com especial atenção às produções do século XX.
Muitos dos ensaios resultam de pesquisas amadurecidas ao longo do tempo e, em certos casos, de comunicações apresentadas em eventos literários, como o estudo dedicado aos clássicos da ficção norte-rio-grandense, originalmente proferido no I Encontro Natalense de Escritores, em 2006.
O livro é dedicado à memória do escritor Bartolomeu Correia de Melo, gesto que reforça o seu compromisso com a tradição intelectual do estado.
Um dos eixos centrais do pensamento crítico do doutor Manoel Onofre Jr. reside na redefinição do conceito de escritor potiguar, que, segundo o autor, não pode limitar-se ao dado meramente cartorial do nascimento. Para ele, potiguar é o escritor que, sendo ou não natural do Rio Grande do Norte, incorpora de forma orgânica a terra e a gente do Estado em sua obra, aquele que aqui viveu ou vive longamente e que, nesse espaço, construiu o seu universo literário.
A partir desse critério, o autor analisa casos emblemáticos de escritores nascidos no lugar, mas cuja produção literária não dialoga com a realidade potiguar, configurando o que denomina, com fina ironia crítica, “estrangeiros em sua própria terra”.
É nesse contexto que se insere a leitura de Nísia Floresta, cuja obra, escrita em diversas línguas e marcada por acentuado cosmopolitismo, não estabelece vínculos substantivos com o Rio Grande do Norte, restringindo-se a referências exteriores.
Amparado na autoridade crítica de Câmara Cascudo, Onofre Jr. considera legítimo o “purgatório literário” a que a autora foi submetida no âmbito local, uma vez que a paisagem e o espírito nortista lhe escaparam inteiramente. Situação análoga é atribuída a Peregrino Júnior, escritor de projeção nacional, mas cujo universo ficcional se enraíza na Amazônia, razão pela qual deve ser situado fora da história das letras potiguares, apesar de sua origem natalense.
No exame das peculiaridades da literatura norte-rio-grandense, o autor identifica um notável desequilíbrio entre os gêneros, caracterizado pela abundância de poetas e pela escassez histórica de ficcionistas, sobretudo até a primeira metade do século XX.
A ficção, segundo demonstra, apenas ganha maior fôlego a partir desse período, em contraste com a poesia, que desde cedo se mostrou terreno fértil. Destaca-se, nesse panorama, a expressiva constelação de poetas mulheres, fenômeno particularmente visível em Natal, com nomes de grande relevância, como Auta de Souza, Zila Mamede e Myriam Coeli, que conferem singularidade ao quadro literário estadual.
Ao traçar a evolução da ficção potiguar, Manoel Onofre Jr. reconstrói com precisão histórica os seus primórdios, marcados por um ambiente cultural incipiente, próprio de uma Natal ainda provinciana e desprovida de um sistema literário plenamente constituído, nos termos da tríade autor-obra-público proposta por Antônio Candido.
Nesse contexto, Luiz Carlos Wanderley é apontado como o autor do primeiro romance publicado no estado, 'Os mistérios de um homem rico', obra moldada à maneira dos antigos folhetins e que, embora relevante como curiosidade histórica, não alcança valor literário consolidado.
O primeiro romancista a atingir um nível qualitativo considerado realmente apreciável é Polycarpo Feitosa, cuja produção, entretanto, é classificada como epigônica e excessivamente conservadora, ancorada em um realismo à maneira de Eça de Queiroz já superado à época, o que o levou, segundo o crítico, a “perder o bonde da História”. Situação semelhante é atribuída a Aurélio Pinheiro, igualmente identificado como realista tardio.
A modernização da prosa de ficção potiguar se efetiva de modo mais consistente com autores vinculados, direta ou indiretamente, ao Movimento Regionalista de 1930. José Bezerra Gomes representa, nesse sentido, um salto qualitativo, ao tentar instaurar um “Ciclo do Algodão” no Rio Grande do Norte com o romance 'Os brutos', embora tal projeto não tenha prosperado plenamente. Sua obra mais bem-sucedida, de viés urbano, é 'Por que não se casa, doutor?'.
Já Eulício Farias de Lacerda, paraibano de nascimento, mas radicado em Natal, constrói uma prosa de elevado apuro formal, marcada por influências de James Joyce e Guimarães Rosa, aliando rigor estilístico e pesquisa linguística à temática regional.
Homero Homem, por sua vez, poeta da Geração de 45, destaca-se como um dos ficcionistas potiguares mais lidos, especialmente pelo romance infantojuvenil 'Menino de asas', que conheceu numerosas edições, mantendo sempre viva a afirmação de sua identidade potiguar, mesmo tendo vivido fora do estado.
No que concerne ao conto, gênero amplamente cultivado no Rio Grande do Norte, Manoel Onofre Jr. identifica em Martins de Vasconcelos o seu pioneiro, com 'Histórias do Sertão', considerado o primeiro livro de contos de boa qualidade publicado no Rio Grande do Norte.
Afonso Bezerra surge como o primeiro grande nome da ficção curta potiguar, sobressaindo-se pela linguagem que incorpora, com autenticidade, a fala do sertanejo, apesar de sua obra reduzida em razão da morte precoce.
Newton Navarro é apontado como um dos maiores contistas dessa região, talvez o maior, cuja prosa revela notável elegância estilística e acentuados valores plásticos e cromáticos, reflexo de sua atuação como artista plástico e de sua proximidade intelectual com Câmara Cascudo.
O gênero conhece um verdadeiro surto de produção na década de 1970, impulsionado pela proliferação de concursos literários, entre os quais se destaca o promovido pela Fundação José Augusto, em 1975, responsável pela publicação de 'Cinco contistas potiguares'.
Ao propor um cânone literário potiguar do século XX, Manoel Onofre Jr. seleciona obras que conjugam valor estético e relevância histórica. No campo da poesia, 'Horto', de Auta de Souza, é reconhecido como o primeiro livro potiguar a alcançar repercussão nacional, celebrizado por seu lirismo espontâneo e duradouro, enquanto o 'Livro de poemas', de Jorge Fernandes, é considerado a única obra modernista de real interesse, responsável por romper com o parnasianismo dominante e inserir a literatura local no movimento modernista brasileiro.
Na ficção, 'As pelejas de Ojuara', de Nei Leandro de Castro, destaca-se por reelaborar formas do romance picaresco e da literatura de cavalaria em chave regionalista e cordelística, combinando humor debochado e momentos de pura poesia, ao passo que 'Os mortos são estrangeiros', de Newton Navarro, reafirma a excelência do conto potiguar, com sua prosa refinada e visualmente sugestiva.
Desse modo, Alguma Prata da Casa consolida-se como obra de consulta obrigatória para estudiosos, pesquisadores e leitores interessados na literatura do Rio Grande do Norte, não apenas pelo rigor crítico e pela amplitude do levantamento realizado, mas também por seu papel fundamental na preservação da memória literária regional, cumprindo, com notável êxito, a função de documentar, interpretar e valorizar um patrimônio cultural frequentemente negligenciado pela historiografia nacional.
Mas continuemos, pois na parte dedicada a uma bibliografia crítica da memorialística do Rio Grande do Norte, o autor empreende um amplo inventário avaliativo de dezenas de obras, examinando-as in loco, com atenção simultânea ao valor literário, à densidade documental e ao alcance histórico de cada uma.
O conjunto revela recorrências temáticas que configuram uma verdadeira topica memoriae regional, bem como as evocações da infância como locus afetivo primordial, o retrato minucioso de tipos populares — figuras humildes, excêntricas ou exemplares do cotidiano — e a crônica sentimental de cidades como Natal, Mossoró, Assu, Ceará-Mirim, Macaíba e Acari, descritas não apenas como espaços geográficos, mas como comunidades simbólicas e afetivas.
Em numerosas análises, Manoel Onofre Jr. assinala, com franqueza crítica, a fragilidade editorial de parte significativa dessas publicações, marcadas por lapsos de revisão, gralhas tipográficas e repetições evitáveis, vícios que, embora sanáveis ex post facto, comprometem a plena fruição estética e a credibilidade acadêmica dos textos.
Nesse panorama, emergem clássicos muito citados e pouco lidos, como 'Província submersa', de Octacílio Alecrim, cujos capítulos iniciais, especialmente os dedicados à infância em Macaíba e às brincadeiras infantis, alcançam estatuto quase antológico, ao lado de obras em que o interesse documental se sobrepõe ao literário, como ocorre em 'O que eu não esqueci', de Aluízio Alves, relevante mais pelos fatos narrados e pela centralidade histórica de seu protagonista do que pela elaboração estilística.
Há também memorialistas que conjugam fluência descritiva, clareza e valor etnográfico, como Geraldo Batista de Araújo em 'Moleque do Acari', cuja prosa prende o leitor ao reconstituir, com sensibilidade, os usos, costumes e tipos humanos do Seridó, sobretudo na edição ampliada e graficamente enriquecida.
Em outros casos, como nos livros de Raimundo Soares de Brito, percebe-se a vocação para o retrato dos tipos populares, ainda que prejudicada por títulos infelizes e falhas recorrentes de revisão, enquanto em Décadas, de Clementino Câmara, o leitor se depara com uma autobiografia sóbria e, por vezes, irônica, que narra a ascensão de um jovem pobre e órfão ao magistério, compondo um testemunho exemplar de mobilidade social per aspera ad astra.
Luís da Câmara Cascudo, em 'O tempo e eu', surge como figura ímpar, oferecendo não uma autobiografia sistemática, mas um quadro de confidências, aforismos, anedotas e perfis, em prosa coloquial e saborosa, quase dialogal, que transforma a leitura em exercício de convivência intelectual.
A crônica sentimental de cidades encontra expressão notável em obras como 'Daqui eu vejo o cata-vento', de Maria do Perpétuo Socorro Wanderley de Castro, em que Açu é recriada pela memória afetiva, ou em 'A cidade que ninguém inventou', de Osair Vasconcelos, que reconstrói Macaíba com nostalgia e boa prosa.
O memorialismo assume ainda feições proustianas em …'Um chão para memórias soltas', de Dulce Cavalcante, e ganha densidade humana em autores tardios como Francisco Rodrigues da Costa, cujas obras 'Perdão, Guanabara' e 'Porto Franco' compõem um painel nostálgico e dramático, marcado por experiências de cárcere, perdas e reconciliações, consolidando-o como um memorialista experiente stricto sensu.
Manoel Onofre Jr. não se furta a apontar limitações estilísticas, como ocorre em 'Natal do meu tempo', de João de Amorim Guimarães, cuja linguagem carece de apuro, embora o painel social da cidade, especialmente o capítulo sobre o Café Majestic, se imponha como documento histórico de primeira ordem.
Em contrapartida, reconhece clássicos incontornáveis, como 'A vida em clave de dó', de Zenaide Almeida Costa, obra que, sem dever aos grandes nomes do gênero em âmbito nacional, se inscreve entre os melhores exemplos da memorialística potiguar.
Ele apresenta ainda dicas de alto valor histórico, situadas na fronteira entre memória e história sensu lato, como 'A cidade e o Trampolim', de João Wilson Mendes Melo, fundamental para a compreensão de Natal durante a Segunda Guerra Mundial, ou 'Vertentes', de João Maria Furtado, cujo depoimento político exige leitura crítica com o devido cum grano salis, em razão do tom passional do autor.
A segunda grande vertente do livro dedica-se às controvérsias em torno de Auta de Souza, assumindo caráter abertamente polêmico e apologético. O literato contesta de modo categórico a tese defendida por Márcio de Lima Dantas, segundo a qual a poetisa padeceria de uma “indelével mediocridade” e não seria reconhecida em nenhuma tradição literária, nec hic nec alibi.
Contra essa afirmação, o autor mobiliza um vasto aparato crítico e historiográfico, demonstrando a presença reiterada de Auta de Souza em obras canônicas da história da literatura brasileira, como as de Alfredo Bosi, Nelson Werneck Sodré, Luciana Stegagno-Picchio, Otto Maria Carpeaux, Andrade Muricy e Massaud Moisés, o que, por si só, invalida a tese da irrelevância.
Acrescenta-se a isso a fortuna crítica composta por mais de sessenta itens, entre livros, ensaios e artigos, bem como os estudos de intelectuais de projeção nacional, a exemplo de Jackson de Figueiredo, cujo ensaio de 1924 é considerado um dos mais penetrantes sobre a poesia autiana, e de Alceu Amoroso Lima, autor do prefácio da terceira edição de 'Horto'.
Ao aprofundar-se na análise poética, Manoel Onofre Jr. rejeita a leitura redutora que vê na obra de Auta apenas misticismo e ascetismo, sustentando, com apoio em Câmara Cascudo, que o elemento permanente de sua poesia é o lirismo espontâneo, perene e emocionalmente legítimo.
Nesse contexto, voltemos ao debate do livro 'Horto' da autora já citada acima e identificamos, ainda que transfigurados, traços de paixão e erotismo sublimado, perceptíveis em diversos versos, nos quais o amor, o desejo e a contemplação do outro emergem sob forma idealizada, sub specie aeternitatis.
O autor não hesita em aventar a hipótese de um lesbianismo platônico em certos poemas dedicados a figuras femininas, não como afirmação categórica, mas como possibilidade interpretativa que contribui para humanizar e desmitificar a imagem da poetisa, fazendo-a surgir menos como ícone etéreo da devoção religiosa e mais como sujeito sensível, complexo e contraditório.
Muito embora Auta de Souza não ocupe o panteão dos grandes poetas nacionais, inter pares como Cruz e Sousa ou Alphonsus de Guimaraens, reduzi-la a um “zero à esquerda” constitui um juízo desproporcional e intelectualmente insustentável, revelando mais o excesso crítico de seu detrator do que qualquer insuficiência intrínseca de sua obra.

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