O LEGADO DE NESTOR LIMA


 A obra do historiador norte-rio-grandense Nestor dos Santos Lima, analisada a partir de uma conferência proferida por ocasião do centenário de seu nascimento, apresenta-se como um tributo não apenas a um homem, mas a uma concepção elevada da existência humana e do sentido da memória histórica. 

A celebração de sua vida e de sua produção intelectual é concebida como um verdadeiro hino de louvor à dignidade do existir, em contraposição direta às correntes existencialistas pessimistas que marcaram o pensamento europeu do pós-guerra. 

Enquanto filósofos como Jean-Paul Sartre viam o homem como um ser ontologicamente frustrado, Karl Jaspers definiam a vida como uma transitoriedade infortunada e Martin Heidegger reduzia a condição humana a um caminhar inexorável para a morte, a perspectiva adotada na conferência se ancora na tradição da filosofia cristã, segundo a qual a vida é dom precioso de Deus, acontecimento original, irrepetível e irredutível, dotado de uma especificidade própria que só se completa na transcendência. 

Evocando Santo Agostinho, sustenta-se que melhor é existir, ainda que sob a dor e o castigo, do que jamais ter participado do mistério do ser. Nesse horizonte, a comemoração do centenário de Nestor Lima assume um significado que ultrapassa o mero ritual comemorativo, convertendo-se em afirmação da permanência do espírito humano através da obra e da memória.

Nascido em Assú, a 1º de agosto de 1887, filho de Claudina Apolônia dos Santos Lima e Ana Souto Lima, Nestor Lima revelou desde cedo inclinação para as letras e para a vida intelectual. Aos onze anos, já colaborava na redação do jornal A Luz, gesto inaugural de uma vocação que se desdobraria ao longo de toda a sua existência. 

Realizou os estudos preparatórios no Liceu Paraibano e formou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife, em 1909. Retornando ao Rio Grande do Norte em 1912, dedicou-se simultaneamente à advocacia, ao magistério, à administração pública e à pesquisa histórica, construindo uma trajetória multifacetada que o tornaria uma das figuras centrais da vida cultural e intelectual do estado. 

O reconhecimento de sua autoridade intelectual ultrapassou os limites regionais, sendo-lhe conferido o título de sócio honorário de quatorze Institutos Históricos e Geográficos, além da publicação de dezenas de livros, discursos e conferências que consolidaram seu nome na historiografia brasileira.

Sua produção intelectual caracteriza-se pela diversidade temática, pelo rigor documental e por uma notável originalidade de abordagem. Entre os numerosos trabalhos que compõem sua bibliografia, três se destacam pela relevância estrutural para a compreensão da história potiguar. 

O primeiro deles, 'A Matriz de Natal', publicado em 1909, teve origem em uma conferência proferida nas comemorações do tricentenário da fundação da principal igreja da capital e foi a obra que lhe franqueou as portas do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Nela, Nestor Lima reconstrói a trajetória da Matriz desde a fundação, em 25 de dezembro de 1599, até os tempos posteriores à consolidação do edifício atual, dividindo a narrativa em períodos históricos bem delimitados. 

Oportunidade em que eleva o papel do primeiro vigário, o padre Gaspar Gonçalves da Rocha, e descreve com vigor a destruição promovida pelos holandeses, afirmando que os adeptos de Calvino não pouparam nem a capela nem os livros, reduzindo tudo a cinzas e destroços.  A obra não se limita à descrição histórica, pois incorpora a relação dos sacerdotes que ali serviram e a reprodução de documentos preciosos para a história civil e religiosa do Rio Grande do Norte, conferindo-lhe valor duradouro como fonte primária.

Outro marco fundamental é 'Um Século de Ensino', publicado em 1927 por ocasião do centenário da Lei Imperial de 15 de outubro de 1827. Trata-se de obra indispensável para o estudo da história da educação potiguar, na qual o autor examina criticamente o quadro educacional do período colonial, marcado pela escassez de escolas régias e pelo evidente desinteresse do Estado pela instrução popular. 

A lei de 1827, analisada em detalhe, representou um divisor de águas ao determinar a criação de escolas de primeiras letras em todas as cidades e vilas do Império, estabelecendo um currículo que abrangia leitura, escrita, operações matemáticas, noções de geometria, gramática, moral cristã, doutrina católica e o ensino da Constituição e da História do Brasil. 

Nestor Lima discute ainda a adoção do método monitorial de André Bell, que permitia a um único professor instruir grande número de alunos por meio de monitores, bem como as condições materiais do magistério, com salários fixados, cátedra vitalícia e ingresso por concurso público. 

No contexto do Rio Grande do Norte, a lei resultou na criação de dezoito escolas de primeiras letras, sendo a primeira aula feminina instalada na Cidade Alta de Natal, em 1º de agosto de 1829, evidenciando, ainda que timidamente, a inserção da mulher no sistema educacional.

A obra considerada o verdadeiro carro-chefe de sua produção historiográfica é a série Municípios do Rio Grande do Norte, publicada entre 1928 e 1941 na Revista do Instituto Histórico. Composta por vinte e duas monografias, constitui um extraordinário manancial de dados sobre as primeiras comunidades do interior do estado. 

Em cada estudo, Nestor Lima aborda de forma minuciosa a origem da sede municipal e de seus povoados, os acidentes geográficos, a criação das freguesias e a sucessão de vigários, a organização judiciária, a estrutura administrativa e as principais atividades agropecuárias. 

Trata-se de um trabalho de fôlego, fundamentado em documentação segura, que se tornou referência obrigatória para estudiosos e inspirou iniciativas posteriores, como o projeto História do Seu Município, desenvolvido pela Fundação José Augusto nas últimas décadas do século XX. A conferência enfatiza a urgência de sua reedição, para que novas gerações tenham acesso a esse patrimônio intelectual.

Ao traçar o perfil de Nestor Lima como historiador, a análise recorre à imagem proposta por Schlegel, segundo a qual o historiador é um profeta voltado para o passado, capaz de operar, por meio da paciência e do rigor, o quase milagre de tornar contemporâneas realidades não coetâneas. 

Sua obra é descrita como bastante abrangente, inquietante, séria e marcada por toques admiráveis de originalidade, o que o coloca ao lado de nomes consagrados da historiografia potiguar, como Manoel Ferreira Nobre, Augusto Tavares de Lira, Luís da Câmara Cascudo e Olavo de Medeiros Filho. 

Esse legado intelectual se completa com sua atuação institucional no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, com o qual manteve uma identificação profunda e duradoura. 

Presidente da entidade por trinta e dois anos, entre 1927 e 1959, tornou-se seu presidente perpétuo, assegurou-lhe a sede definitiva e dedicou-se à preservação de seu acervo com zelo comparável ao dos frades medievais que salvaram o saber da Antiguidade e com a bravura de Heitor, o herói troiano, na defesa daquilo que considerava sagrado. 

Desse jeito, a vida e a obra de Nestor dos Santos Lima permanecem como testemunho eloquente de que a memória histórica, quando cultivada com rigor e paixão, é uma forma de permanência do humano diante da passagem inexorável do tempo.

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