HISTORIADOR TAVARES DE LYRA EXPLICA ONDE A GEOGRAFIA SE TORNOU PODER

 


Macaíba não nasceu da fé ou do Estado, mas do mercado. Como observa o historiador Tavares de Lyra, a cidade ostenta uma origem distinta da maioria das vilas coloniais, pois surgiu do cálculo estratégico e da vocação comercial de homens que viram, no século XIX, o potencial de transformar as margens do rio em um entreposto de influência. 

Seu legado, forjado no empreendedorismo, permanece como um dos marcos mais vigorosos da história do Rio Grande do Norte, é como pontua o historiador e segue nos esclarecimentos que vislumbramos abaixo ... 

Às margens do Rio Jundiaí, cuja correnteza ditava o ritmo da circulação de mercadorias e de riquezas, formou-se um centro pulsante de prosperidade, ambição e efervescência intelectual. Foi nesse ambiente de abundância material e ousadia intelectual que veio ao mundo e se formou uma das figuras mais notáveis e, ao mesmo tempo, mais trágicas da história potiguar: Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, inventor, político e visionário, cujo destino se entrelaçaria de modo indelével à ascensão e à memória de sua terra natal.

A gênese de Macaíba confunde-se com a percepção lúcida de uma oportunidade histórica. O que inicialmente era conhecido como Sítio Coité transformou-se no embrião de uma cidade graças à compreensão de que aquele ponto geográfico, situado próximo ao Rio Jundiaí, reunia condições excepcionais para o florescimento do comércio. 

O Largo das Cinco Bocas, onde até a década de 1930 se erguia um cruzeiro a marcar simbolicamente o ponto inaugural da povoação, tornou-se o marco zero de um espaço urbano que se expandiria rapidamente. Em 1855, com a mudança de proprietários, o antigo sítio passou a ser chamado de Povoado da Macaíba, nome extraído da palmeira majestosa que se tornaria símbolo da localidade e cuja presença, segundo a tradição, ainda resiste como testemunho silencioso dos primórdios da cidade.

O grande artífice dessa metamorfose foi Fabrício Gomes Pedroza, homem de notável faro comercial e de ambição sem limites estreitos. Ao receber o Sítio Coité como parte da herança de sua esposa, Fabrício enxergou muito além da terra bruta e percebeu ali um ponto estratégico capaz de concentrar e redistribuir as riquezas do sertão e das zonas produtoras do entorno. 

Sua primeira grande iniciativa foi a criação de uma feira, que atraiu comerciantes, produtores e compradores, lançando as bases de um ciclo contínuo de crescimento econômico. A partir desse núcleo inicial, Macaíba passou a exercer uma atração irresistível sobre o comércio regional. A consolidação de seu poder material refletiu-se também na formação de uma vasta rede familiar, construída a partir de três casamentos e de uma descendência numerosa, composta por trinta e dois filhos, que se tornaria a espinha dorsal da elite econômica e política local.

A ascensão de Macaíba não pode ser compreendida sem a centralidade do Rio Jundiaí. Fabrício Pedroza compreendeu com clareza que Natal, isolada por extensos campos de dunas, dependia quase exclusivamente das vias fluviais para o abastecimento. Todo o fluxo de mercadorias oriundas do sertão, de Ceará-Mirim e de outras regiões precisava transitar pelo Jundiaí antes de alcançar a capital. 

Explorando essa dependência estrutural, Fabrício estabeleceu um porto e construiu grandes armazéns, nos quais concentrava os gêneros que chegavam. Detendo o controle da oferta, revendia os produtos a preços elevados, acumulando uma fortuna colossal e transformando Macaíba no mais importante entreposto comercial da província. Esse êxito extraordinário, concentrado em poucas mãos, atrairia alianças estratégicas e, inevitavelmente, rivalidades ferozes, das quais emergiria um dos maiores empreendimentos econômicos do período.

Entre as figuras de maior peso nesse cenário estava o Coronel Estevão de Moura, proprietário da Fazenda Barra, cuja sede, hoje conhecida como Solar Caxangá, simbolizava o poder agrário e político da região. Inicialmente aliados, Fabrício Pedroza e o Coronel Estevão uniram forças para a construção de uma ponte destinada a facilitar o acesso dos compradores de Natal ao comércio de Macaíba. 

Por motivos que a história não registrou com precisão, essa aliança se rompeu, e a ruptura tornou-se o estopim para a mais ambiciosa iniciativa de Fabrício. Em resposta ao conflito, ele adquiriu uma vasta extensão de terras e fundou o complexo de Guararapes, um verdadeiro império econômico que superaria tudo o que até então existira na Província. 

Guararapes não era apenas uma fazenda, mas um organismo autossuficiente, dotado de casa grande, capela, escritórios, armazéns monumentais, vila operária e até um núcleo habitacional do outro lado do rio. 

Em 1861, ali foi inaugurado um porto privado, sede da Casa Fabrício & Companhia, cuja força econômica era tamanha que seu proprietário chegou a emprestar recursos ao próprio governo provincial para o pagamento da força pública, dívida que jamais seria quitada. Mesmo após a mudança de Fabrício para Olinda, em 1870, a administração do império permaneceu sólida sob a condução de sua filha Maria da Cruz Pedroza, evidenciando o protagonismo feminino na continuidade dos negócios.

A riqueza acumulada em Macaíba produziu efeitos que transcenderam o plano material. O comércio financiou uma formação intelectual rara para os padrões da época, transformando a cidade em um verdadeiro celeiro de quadros políticos, técnicos e intelectuais. 

Fabrício Pedroza investiu pesadamente na educação dos filhos, inclusive das filhas, enviando-as para instituições renomadas da Suíça, da França e da Inglaterra.  Esse investimento sistemático em capital humano foi o fermento que fez de Macaíba o berço incontestável da elite intelectual potiguar até a Primeira República, gerando nomes como os Albuquerque Maranhão, Pedro Velho e, de modo singular, Augusto Severo.

Augusto Severo de Albuquerque Maranhão foi o produto mais acabado dessa era de ouro. Sua ambição não era apenas traço individual, mas a expressão máxima de uma autoconfiança coletiva forjada por duas gerações de poder econômico e refinamento intelectual. 

Nasceu no coração de Macaíba, no local onde hoje se ergue um estabelecimento comercial, e desde a infância revelou uma fascinação quase obsessiva pelo voo. Nos morros de Guararapes, empinava seus “papagaios”, como chamava as pipas, ensaiando simbolicamente o desejo de conquistar os céus. Após os primeiros estudos na cidade natal, seguiu para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola Politécnica, interrompendo o curso antes da conclusão. 

De volta ao Rio Grande do Norte, dedicou-se ao magistério como professor de matemática e exerceu a vice-direção do Ginásio Norte-Riograndense, até que sua trajetória o conduziu à política, sendo eleito deputado estadual e, posteriormente, deputado federal.

No cenário político da capital federal, consolidou a imagem de homem destemido. Um episódio célebre, envolvendo o desafio para um duelo feito por um almirante, marcou sua passagem pelo Congresso. Exímio atirador, Severo aceitou o confronto, que acabou não se concretizando por intervenção de amigos comuns, mas o gesto bastou para firmar sua reputação de coragem inabalável. 

Nada obstante, sua verdadeira vocação estava além da tribuna parlamentar e a aeronáutica tornou-se o centro de sua vida, e a construção de dirigíveis passou a absorver sua energia, seu tempo e seus recursos. 

Diferentemente de Santos Dumont, jamais contou com apoio oficial do Estado, circunstância que se revelaria fatal. Ainda assim, demonstrando ausência de rivalidade mesquinha, foi ele próprio quem, como deputado, propôs uma subvenção aos inventos de Santos Dumont. 

Financiado com recursos familiares, partiu para Paris, onde construiu o dirigível Pax, enfrentando o escárnio de setores da sociedade e da imprensa que não compreendiam a grandeza de seu projeto.

O dia 12 de maio de 1902 amanheceu sob a promessa da consagração. Antes do voo, Augusto Severo distribuiu panfletos ao público e, instantes antes de subir a bordo, recebeu de uma criança uma medalha de Nossa Senhora da Conceição, que levou consigo. 

Às cinco horas e trinta minutos da manhã, o Pax elevou-se aos céus de Paris, conduzido por Severo e pelo mecânico francês Georges Saché, sob o olhar atento de uma multidão que incluía a princesa Isabel. A cerca de quatrocentos metros de altura, uma explosão, possivelmente causada por uma faísca do motor, incendiou o dirigível. 

A queda foi brutal e a morte, violenta, chocando o mundo e ocupando as manchetes dos principais jornais internacionais. A tragédia estendeu-se para além do instante do desastre. Anos depois, abandonada e mergulhada em dificuldades extremas, sua esposa Natália tiraria a própria vida na Espanha.

O que restou após a morte de um homem tão extraordinário foi um legado ameaçado pelo esquecimento. A casa onde Augusto Severo nasceu foi demolida e o complexo de Guararapes, outrora símbolo máximo da riqueza potiguar, encontra-se em ruínas, com túmulos violados e vestígios destruídos por caçadores de tesouros. O porto que escoava a produção do Estado foi soterrado, embora ainda visível nas imagens de satélite e, até o aeroporto que durante décadas levou o nome de Augusto Severo foi rebatizado. 

Em contraste amargo, sua memória é mais preservada em Paris, onde uma rua e uma placa no cemitério de Montparnasse assinalam o local exato da queda do Pax.

A saga de Augusto Severo está indissociavelmente ligada à ascensão econômica de Macaíba. O mesmo impulso que transformou um sítio em centro comercial do Rio Grande do Norte alimentou o sonho de um homem que ousou converter a fortuna da terra em conquista dos céus. 

Assim como o Pax subiu impulsionado por um ideal grandioso para terminar em destroços, a memória da era de ouro de Macaíba e de seu filho mais ilustre corre o risco de se dissipar, caso não seja resgatada, valorizada e transmitida às gerações futuras como parte essencial da história potiguar.

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