O SEBISTA EDITOR
Abimael Silva consolidou-se como uma das figuras mais singulares e decisivas da vida cultural do Rio Grande do Norte ao fundar, em 1985, o Sebo Vermelho, empreendimento que ultrapassou os limites de uma simples livraria de livros usados para se tornar uma das mais prolíficas iniciativas editoriais da história potiguar.
Movido por uma paixão profunda pelos livros e por uma insatisfação declarada com a carreira bancária, que ele próprio definiu como o período mais terrível de sua vida, Abimael rompeu com a estabilidade profissional para dedicar-se integralmente à promoção da leitura, da memória e da produção intelectual local.
O Sebo Vermelho nasceu modestamente, a partir de sua biblioteca pessoal de aproximadamente seiscentos volumes, adquiridos com sacrifício ao longo de anos em que viveu com recursos limitados, mas rapidamente se transformou em um espaço de referência para escritores, pesquisadores e leitores interessados na cultura norte-rio-grandense.
Oriundo de uma família numerosa, sendo o último de oito filhos homens, Abimael teve uma formação marcada pelo esforço e pela valorização da educação. Sua mãe, Dona Maria Rodrigue da Silva, artesã e dona de casa, demonstrava grande preocupação com o futuro dos filhos e, em 1974, enviou Abimael e suas irmãs para estudar em Natal.
Na capital, ainda adolescente, buscou meios próprios de subsistência, vendendo confeitos e pirulitos em um tabuleiro construído por seu pai, carpinteiro, na Praia do Meio. Posteriormente, residindo no bairro das Quintas, trabalhou em uma padaria nas primeiras horas da manhã, conciliando o emprego com os estudos no colégio Isabel Gondim.
Por intermédio da irmã Luzinete, ingressou mais tarde como contínuo em um banco, experiência que lhe garantiu sustento, mas não realização pessoal, pois seu desejo declarado sempre foi trabalhar em uma livraria, sonho que considerava difícil de concretizar em uma cidade que julgava pobre em espaços dedicados ao livro, percepção que costumava ilustrar com a frase de Osvaldo Lamartine segundo a qual, em Natal, “as coisas crescem como rabo de cavalo, para baixo”.
Diante da impossibilidade de ingressar no mercado livreiro como empregado, Abimael optou por criar o próprio caminho. Em 1985, participou ativamente de uma greve bancária com o propósito deliberado de provocar sua demissão e, assim, receber os direitos trabalhistas que lhe permitiriam investir no projeto pessoal.
Com esses recursos, montou uma pequena banca, pintada de vermelho para chamar a atenção, no Beco da Lama, espaço tradicional do centro cultural natalense. A cor escolhida chegou a suscitar interpretações políticas, mas tinha apenas função estratégica e visual.
O acervo inicial correspondia à totalidade de sua biblioteca pessoal, embora, à medida que o negócio prosperava, ele tenha retirado da venda alguns dos livros aos quais era mais afetivamente ligado. Em poucos meses, o Sebo Vermelho começou a se firmar, passando posteriormente por outros endereços até se estabelecer definitivamente em um espaço anteriormente ocupado pelo escritor e folclorista Gumercindo Saraiva, o que reforçou simbolicamente sua inserção na tradição intelectual local.
A atuação de Abimael Silva, entretanto, não se limitou à comercialização de livros. O Sebo Vermelho destacou-se, sobretudo, como editora independente, responsável por uma produção editorial de dimensão excepcional. A transição para a atividade editorial teve início quando o jornalista Anchieta Fernandes, autor de um livro sobre a história do cinema em Natal, não encontrava editor disposto a publicar sua obra.
Abimael assumiu o compromisso de viabilizar a edição, declarando que faria o possível, mesmo à custa de sacrifícios pessoais, para que o livro viesse a público. A publicação alcançou repercussão significativa, chegando a ser resenhada no Jornal do Brasil no início da década de 1990, o que consolidou o Sebo Vermelho como agente editorial relevante.
A partir de então, a editora passou a publicar de forma contínua obras dedicadas à literatura, à história, à memória e à cultura do Rio Grande do Norte, tanto por meio da reedição de clássicos de autores como Câmara Cascudo, Oswaldo Lamartine e Olavo de Medeiros, quanto pela divulgação de novos escritores.
O volume dessa produção impressiona pela escala e pela constância. Em aproximadamente quatro décadas de atuação, o Sebo Vermelho publicou quase setecentos títulos, mantendo uma média anual que supera amplamente a produção conjunta de instituições tradicionais do estado, como a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico e a universidade pública.
Mesmo quando comparada a grandes editoras nacionais, como a Companhia das Letras, a atuação de Abimael revela-se expressiva, uma vez que, trabalhando de forma praticamente solitária, ele alcança cerca de dez por cento da produção anual de uma das maiores casas editoriais do país. Tal desempenho sustenta a afirmação recorrente de que não há, no Rio Grande do Norte, nenhuma instituição que tenha editado mais livros do que o Sebo Vermelho sob a direção de Abimael Silva.
Um aspecto particularmente notável dessa trajetória é a completa independência financeira do projeto. Abimael afirma nunca ter utilizado recursos públicos nem ter recebido incentivos fiscais ou apoio institucional sistemático. Essa ausência de financiamento oficial contrasta com a relevância cultural de sua produção e constitui fonte constante de frustração, sobretudo diante do fato de que nenhuma de suas publicações foi adquirida por órgãos públicos para abastecer bibliotecas, nem mesmo os numerosos livros dedicados a figuras centrais da cultura potiguar, como Zila Mamede.
Além disso, o editor enfrenta o desafio de explicar ao público o custo de seus livros, produzidos em tiragens reduzidas, geralmente entre duzentos e quinhentos exemplares, o que eleva o preço unitário em comparação com obras de grande circulação.
Apesar dessas dificuldades, o reconhecimento intelectual de seu trabalho é amplo. Abimael Silva é frequentemente descrito como um herói cultural, um mecenas original, dotado de inteligência, obstinação e sensibilidade, capaz de garantir a circulação de obras fundamentais que, de outro modo, permaneceriam esquecidas.
Sua participação no programa de Jô Soares, em 2 de julho de 2003, conferiu-lhe projeção nacional e internacional, despertando inclusive o interesse de leitores estrangeiros, como um português que viajou de Portugal a Natal apenas para conhecê-lo. Ainda assim, persiste a percepção de que a cidade e as instituições locais não dimensionaram plenamente a importância de sua contribuição.
Como projeto de vida e síntese de sua vocação, Abimael estabeleceu para si a meta de alcançar mil títulos publicados até completar setenta anos de idade. Para ele, essa ambição não se reduz a um número, mas expressa a urgência de acelerar a produção intelectual como forma de ampliar o alcance da memória cultural e de oferecer uma contribuição duradoura diante da brevidade da vida.
Seu testemunho revela uma relação afetiva intensa com o livro impresso, visto não apenas como objeto comercial, mas como expressão material da inteligência e da história coletiva.
Portanto, o legado de Abimael Silva e do Sebo Vermelho configura-se como um dos mais consistentes e singulares esforços de preservação e difusão da cultura potiguar, construído à margem de estruturas oficiais, sustentado pela paixão pelos livros e pela convicção de que a cultura constitui um bem essencial à vida social.
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