UM POUCO SOBRE A OBRA BALALIANA
Para falar de parte da obra de Paulo Balá, temos que ler uma série de crônicas redigidas em formato epistolar que mergulham de modo profundo e sensível na história, na cultura, na genealogia e no cotidiano da região do Seridó, no Nordeste brasileiro.
Escritos alguns entre os anos de 2006 e 2008, esses textos compõem um quadro da vida seridoense, articulando memórias pessoais, registros históricos, tradições orais e descrições minuciosas de artefatos, práticas e costumes que moldaram a experiência social da região.
Ao longo das cartas, emergem como temas centrais a complexa rede de vínculos familiares e genealógicos que estruturaram a sociedade sob análise; as práticas culturais e tradições populares, que vão do uso do fumo e das festividades religiosas e profanas; o processo de desenvolvimento social, marcado pela chegada de profissionais da saúde, pela construção de equipamentos urbanos e pela introdução de novas tecnologias, como o rádio; as duras realidades da vida no sertão, atravessadas pela violência recorrente, por crimes que se tornaram notórios e pelos ciclos devastadores das secas; e, por fim, uma rica documentação da cultura material, expressa em descrições detalhadas de ferramentas, armas e utensílios indispensáveis ao trabalho e à sobrevivência.
Consideradas em conjunto, essas crônicas constituem um registro denso, vívido e de grande valor memorialístico, preservando a lembrança de um tempo, de seus personagens e de suas tradições.
No plano da genealogia e da estrutura familiar, as narrativas evidenciam a centralidade da família e da linhagem como eixos organizadores da vida social no Seridó. As cartas frequentemente recuam às origens de determinados grupos familiares, acompanhando seus desdobramentos ao longo das gerações e mapeando a expansão de clãs que deram origem a povoados e comunidades inteiras.
Um tema recorrente é o das tradições matrimoniais, entre as quais se enaltece o costume de a filha mais velha casar-se antes das demais, prática ilustrada pela narrativa bíblica de Jacó, Labão, Lia e Raquel. Jacó, enamorado de Raquel, serviu sete anos a Labão, mas foi surpreendido ao receber em casamento a primogênita Lia, sendo obrigado a trabalhar por mais sete anos para desposar Raquel. Esse episódio é evocado como fundamento simbólico de um costume popularmente traduzido na expressão “quebrar a melancia na cabeça da mais velha”.
A formação de famílias numerosas aparece como um pilar da ocupação e do crescimento demográfico da região, com exemplos que impressionam pela prolificidade, como o de Antônio Paes de Bulhões, nascido em 1718 e falecido em 1888. Não se olvidando da Josefa, que, por sua vez, teve dezenove filhos com Caetano Dantas Correia; ou ainda o dos avós do narrador, casados em 1883 e pais de vinte e quatro filhos.
Aborda-se também o caso de Bevenuto Pereira de Araújo Filho, cuja descendência, somando filhos, netos, bisnetos, trinetos, tataranetos e pentanetos, alcançava, em 2005, a expressiva marca de seiscentas e trinta e cinco pessoas.
Ao longo das crônicas, surgem ainda figuras e famílias de relevo, como Félix Bezerra e Silvino Bezerra, ancentrais do escritor Paulo Bezerra Balá; Bembém, filha caçula do casal, casada com um primo; Tomás de Araújo Pereira, neto do primeiro vigário colado da freguesia do Acari; e o capitão José Sancho de Araújo, cuja prole é cuidadosamente registrada.
Os costumes, as tradições e a cultura popular ocupam amplo espaço nas cartas, compondo um retrato minucioso da identidade seridoense. O uso do fumo, por exemplo, é descrito sob variados aspectos, desde sua origem botânica no gênero Nicotiana até sua difusão entre os europeus após a chegada de Colombo à América.
No Brasil, a Bahia destacou-se como grande produtora e comerciante de um fumo de qualidade inferior, etc.. As formas de consumo variavam entre o cigarro e o cachimbo, associados a problemas de saúde, o rapé ou torrado, preparado a partir de folhas sem nervuras levadas ao fogo em tachos e misturadas a sementes de cumarina e manteiga do sertão, e o hábito de mascar fumo, comum entre moradores de sítios e fazendas.
O tabaco também desempenhava funções medicinais, como no preparo da infusão de Iapen Araújo com álcool para o tratamento de sarna e frieira, e agrícolas, sendo utilizado em caldas misturadas com água e sabão para combater pragas nas plantações. Seu comércio nas feiras sertanejas seguia medidas tradicionais, como a “quarta”, correspondente a um quarto de vara antiga.
O colete de couro surge como instrumento repressivo empregado contra os chamados “quebra-quilos”, participantes de movimentos de revolta popular. Já o tronco, descrito como engenhosa invenção atribuída a Zé Sancho, consistia em uma prancha de aroeira perfurada, onde os tornozelos do 'suposto' castigado eram presos, sintetizando a lógica punitiva de uma sociedade marcada pela autoridade privada.
As festividades religiosas e profanas são evocadas com riqueza de detalhes. A Semana Santa em Acari incluía práticas como o “vavavu de pedintes”, as “marrãs de moça donzela” e a vigilância dos poleiros na passagem da Sexta-feira para o Sábado, com espingardas carregadas de sal grosso. A “serração do Judas”, realizada na madrugada, envolvia rituais de escárnio e punição simbólica, culminando na exposição do boneco em árvores e no seu esquartejamento popular.
A Festa de Agosto, em torno da igreja matriz concluída em 1863, reunia novenas, queima de fogos, atrações como o camaleão, balões, bandas de música, jogos, barracas e leilões ruidosos, compondo um dos momentos máximos da sociabilidade local. As danças, sobretudo o arrasta-pé ou samba, animavam as noites até a madrugada, sob a vigilância do mestre-sala e ao som da rabeca, com ritmos marcados pelo “pau-e-corda”, antes da introdução da sanfona e da concertina, que alteraram a paisagem sonora do Seridó.
No que se refere ao desenvolvimento social e econômico, as crônicas registram a lenta transição de uma sociedade eminentemente rural para uma realidade mais urbanizada, ainda que permeada por carências. A saúde era inicialmente dominada pela medicina caseira, baseada em chás e nos cuidados das tratadeiras. Gradualmente surgiram farmácias, como a de Antônio Basílio de Araújo, a de João Batista Galvão, inaugurada em 1908, “A Nova Sorte”, de Antônio Bezerra, e a Drogaria Santa Luzia.
Médicos pioneiros, como Flávio Maroja Filho, Albino Campelo Bezerra Cavalcanti, Odilon Guedes e Paulo Gonçalves de Medeiros, bem como dentistas como José Carlos Leite, José Vinício Dantas e o Dr. Zezé, desempenharam papel fundamental na consolidação da assistência à saúde.
A infraestrutura incluiu ainda hospitais improvisados e a inauguração de uma maternidade em 1951. O Largo do Mercado de Acari figurava como centro da vida comercial, enquanto a Praça Coronel Silvino Bezerra, com seu busto de bronze, simbolizava a memória cívica local. A introdução do rádio, em 1938, transformou profundamente a sociabilidade, criando espaços coletivos de escuta e difusão de notícias nacionais e internacionais.
A violência, os crimes e as secas atravessam as prosas como marcas indeléveis da realidade seridoense. Assassinatos, assaltos e conflitos armados são relatados com precisão, assim como os ciclos de estiagem que devastaram a região, especialmente as secas de 1877, 1915, 1932 e a de 1908, descrita mês a mês a partir dos registros de Phelippe e Theophilo Guerra, culminando em um ano de miséria extrema e fome generalizada.
As crônicas oferecem ainda um inventário detalhado da cultura material da região, descrevendo instrumentos como a cangalha, o chocalho e o ferro de marcar gado, além de armas de caça e defesa, como a espingarda lazarina, a funda, o bodoque e a baladeira. Esses objetos, mais do que simples utensílios, aparecem como extensões do modo de vida, indispensáveis ao trabalho, à sobrevivência e à afirmação identitária.
Por fim, os textos refletem sobre a memória, a literatura e a espiritualidade como elementos fundamentais da experiência acariense. O lançamento do primeiro livro do sertanista, em 2000, no Museu Municipal de Acari, é traçado como um gesto de homenagem aos antepassados. A poesia, exemplificada pelo soneto “Tempos Idos”, de Augusto dos Anjos, expressa a saudade de um mundo em transformação.
A escassez de livros na infância contrasta com a presença de obras religiosas, folhetos populares, manuais de saúde e jornais, enquanto a educação formal se consolida com os mestres-escolas e o Ginásio Diocesano Seridoense. A fé católica, profundamente enraizada, aparece como herança dos antepassados, com a igreja e os padres-curas desempenhando papel central na organização social e simbólica da região.
Em seu conjunto, essas crônicas constituem um testemunho literário e histórico de extraordinária densidade, preservando a memória viva do Seridó e de sua gente.
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