1630 -


O século XVII marcou o apogeu da República das Províncias Unidas dos Netherlands, período em que a jovem nação marítima ascendeu ao centro do comércio mundial e consolidou uma das mais vigorosas civilizações mercantis da Europa moderna. 

Conhecida pela historiografia como a Idade de Ouro holandesa, essa era não produziu apenas riqueza e expansão ultramarina, mas também um extraordinário testemunho visual de sua própria sociedade. Enquanto grande parte da arte europeia ainda se submetia à idealização aristocrática, a pintura barroca neerlandesa voltou seus olhos para a vida cotidiana, retratando com espantoso realismo os rostos, os corpos e os ambientes da população comum. 

Nas telas de Rembrandt, Frans Hals, Johannes Vermeer, Jan Steen e Judith Leyster encontra-se preservada uma verdadeira crônica humana do povo holandês seiscentista e a população dos Países Baixos daquele período apresentava, em sua maioria, os traços característicos das populações do norte europeu, particularmente das matrizes germânicas ocidentais e escandinavas que historicamente moldaram a região. 

Predominavam peles muito claras, frequentemente sensíveis  às intempéries do clima atlântico, com tonalidades que variavam do branco rosado ao alvo quase translúcido. Entre os trabalhadores rurais, pescadores e marinheiros, contudo, o rigor da vida marítima imprimia à pele um aspecto curtido pelo vento e pelo sal, marcado pelas agruras das longas navegações promovidas pela Companhia das Índias Orientais e pela Companhia das Índias Ocidentais.

Os cabelos claros constituíam um dos traços mais recorrentes nas representações artísticas da época. Tons de louro, castanho-claro e ruivo apareciam abundantemente nos retratos urbanos e populares, embora cabelos mais escuros também fossem encontrados em certas regiões e famílias. Os olhos azuis, cinzentos e verdes predominavam estatisticamente, compondo o aspecto frequentemente associado aos povos setentrionais. 

A combinação entre pele clara, cabelos claros e olhos luminosos tornou-se uma das marcas mais visíveis da população neerlandesa seiscentista, sobretudo quando contrastada com os povos mediterrânicos do sul europeu. Apesar da imagem contemporânea do holandês extremamente alto, a realidade biológica do século XVII era bastante distinta. 

Os habitantes dos Netherlands eram apenas moderadamente mais altos do que ibéricos e italianos da mesma época. A média masculina raramente ultrapassava um metro e sessenta e poucos centímetros, reflexo das limitações nutricionais e sanitárias do período. De qualquer modo, a alimentação relativamente rica em derivados lácteos e proteínas proporcionava aos neerlandeses uma constituição física considerada robusta em comparação com outras populações europeias.

As feições observadas nas pinturas barrocas revelam rostos largos ou ovais, mandíbulas bem definidas, testas elevadas e narizes predominantemente retos, embora também surgissem perfis ligeiramente aquilinos. A pintura holandesa, marcada pelo naturalismo, evitava disfarçar rugas, imperfeições dentárias ou marcas do envelhecimento. Nas tavernas retratadas por Jan Steen ou nos retratos corporativos de Rembrandt, homens e mulheres aparecem como figuras concretas da vida urbana, sem o verniz idealizado que caracterizava a arte cortesã do restante da Europa.

As diferenças sociais também se refletiam claramente na aparência física. A burguesia mercantil, enriquecida pelo comércio atlântico e pelas finanças, exibia corpos mais volumosos, faces coradas e certa tendência ao sobrepeso, entendido então como sinal de prosperidade e abundância alimentar, mas nos retratos familiares e nas reuniões das guildas urbanas, observa-se uma sociedade satisfeita de sua riqueza, vestida com tecidos caros e marcada pela confiança econômica de uma potência marítima em ascensão.

Já entre marinheiros, artesãos e camponeses, a realidade era outra. Os corpos surgem mais magros e endurecidos pelo trabalho contínuo; os rostos, sulcados pela fadiga e pela exposição às intempéries. O crescimento do consumo de açúcar vindo das colônias ultramarinas começou também a deixar marcas visíveis na saúde bucal da população, algo que alguns pintores registraram com surpreendente sinceridade.

Importa ainda recordar que os homens enviados ao ultramar sob a bandeira neerlandesa não constituíam um bloco étnico homogêneo. As tropas e tripulações que alcançaram o Brasil durante a ocupação do Nordeste, entre 1630 e 1654, reuniam indivíduos provenientes de diferentes partes do norte europeu. 

Sob o comando de Johan Maurits van Nassau-Siegen, serviram não apenas holandeses propriamente ditos, mas também alemães, escandinavos, flamengos e britânicos recrutados como mercenários ou marinheiros. Embora diversos em origem regional, compartilhavam em grande medida o mesmo perfil físico das populações germânicas e atlânticas do norte da Europa.

Dessa forma, o povo holandês do século XVII apresentava-se como o produto humano de uma civilização marítima florescente, sendo fisicamente moldado pelo clima rigoroso do Atlântico Norte, pela urbanização mercantil e pelas exigências das navegações oceânicas. A arte barroca neerlandesa, ao eternizar sem idealizações os rostos de sua época, legou à posteridade um dos mais ricos retratos antropológicos da Europa moderna.

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