DECIFRANDO OS SERTÕES DOS GALEGOS
Em julho de 2020, uma notícia publicada repercutiu intensamente nos sertões e nas cidades do Ceará ao divulgar uma pesquisa genética que buscava rastrear as origens ancestrais do povo cearense.
O estudo, intitulado GPS-DNA Origins Ceará, apresentou uma investigação considerada pioneira no Brasil, realizada a partir da coleta de 160 amostras de saliva distribuídas por diversas regiões do estado. O material foi enviado para análise em um laboratório especializado nos Estados Unidos, utilizando uma metodologia desenvolvida na Inglaterra e aperfeiçoada pelo geneticista israelense-americano Eran Elhaik, criador da ferramenta denominada Geographic Population Structure (GPS-DNA).
A proposta da pesquisa consistia em identificar os chamados “bolsões genéticos” que compõem a formação do povo cearense, cruzando milhares de marcadores de DNA com um vasto banco internacional de assinaturas genéticas. Segundo os pesquisadores, os resultados apontaram forte presença de ancestralidade europeia, sobretudo relacionada à região da Fenoscândia — vasta área do norte da Europa que compreende territórios da Escandinávia — além de influências ibéricas, ameríndias e, em menor escala, africanas.
O estudo também identificou traços genéticos associados a povos oriundos da Sibéria, ancestrais dos indígenas americanos que atravessaram o estreito de Bering em tempos remotos cuja notícia provocou grande repercussão, especialmente no interior sertanejo, onde muitos passaram a relacionar os resultados ao antigo imaginário popular acerca da predominância de tipos físicos claros no sertão nordestino — homens de pele alva, cabelos castanhos ou louros e olhos claros, frequentemente chamados de “galegos” na tradição regional.
Em muitas comunidades rurais do Ceará e do sertão vizinho paraibano, potiguar e pernambucano, tais características sempre despertaram curiosidade e alimentaram narrativas sobre antigas presenças europeias no interior nordestino. Não obstante, o estudo também dialogava diretamente com as teses defendidas décadas antes por Parsifal Barroso no livro O Cearense, publicado em 1969.
Naquela obra, o autor procurava compreender a formação étnica do Ceará por meio de documentos históricos, registros migratórios e interpretações culturais. A nova pesquisa procurava oferecer, segundo seus idealizadores, uma sustentação genética para hipóteses antigas acerca da forte influência europeia na constituição do povo cearense.
O professor Luís Sérgio Santos, coordenador da pesquisa e docente da Universidade Federal do Ceará, defendia que o trabalho possuía rigor científico e finalidade voltada à ancestralidade populacional, ainda que sem objetivos médicos diretos. O pesquisador afirmava que a origem genética de um povo ajuda não apenas a compreender o passado, mas também determinadas predisposições hereditárias presentes em algumas populações do Nordeste.
Entretanto, à medida que o assunto ganhava espaço na imprensa e nas redes sociais, surgiram críticas severas de geneticistas e pesquisadores brasileiros. Diversos especialistas questionaram a metodologia empregada, sobretudo o tamanho reduzido da amostra e o fato de os participantes não terem sido selecionados de forma aleatória. Outros apontaram problemas na interpretação dos resultados, especialmente quanto à associação direta entre marcadores genéticos da Fenoscândia e uma suposta herança “viking” no Ceará.
Os críticos observavam que a presença de componentes genéticos escandinavos não significava necessariamente uma migração direta de vikings para o sertão nordestino. Segundo tais análises, esses traços poderiam ter chegado ao Brasil por intermédio dos próprios povos ibéricos, uma vez que a Europa passou, durante milênios, por sucessivas misturas populacionais. Assim, genes hoje encontrados em regiões escandinavas também poderiam estar presentes em portugueses, espanhóis e judeus sefarditas que migraram para a Península Ibérica e, posteriormente, para o Brasil colonial.
Nesse contexto histórico, muitos estudiosos lembraram a importância da ocupação holandesa no Nordeste entre 1630 e 1654. A presença da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais nas capitanias açucareiras trouxe para o Brasil soldados, comerciantes, judeus sefarditas e outros grupos europeus oriundos do norte e do oeste da Europa. Após a expulsão dos holandeses, parte dessa população permaneceu em território nordestino, sobretudo no Sertão do Seridó ou acabou dispersando-se pelos sertões interiores tanto da Paraíba quanto do próprio Ceará, misturando-se às populações locais, indígenas e luso-brasileiras.
Para tanto, não se deve olvidar os gangarras de Pernambuco, tampouco a Furna dos Holandeses, localizada a 1.050 metros de altitude em Triunfo. Este município brasileiro, situado no topo da Serra da Baixa Verde e na divisa entre Pernambuco e Paraíba, fica a aproximadamente 405 quilômetros de Recife, a capital do estado. Conta-se que, no século XVII, após a derrota na Batalha dos Guararapes, cerca de 40 famílias de origem holandesa teriam fugido a pé da capital e caminhado toda essa distância até a Furna, abrigando-se na furna por um longo período.
Ligada a esse contexto está a história dos gangarras, uma comunidade do Sítio Bandeira cujos membros são caracterizados por traços físicos europeus, pele clara com olhos azuis, e por uma cultura vibrante. Marcado pela rotina do trabalho árduo na agricultura e na produção de carvão, esse povo expressa suas ricas tradições em festas religiosas e em danças como o quebra-lajeiro. No entanto, os moradores enfrentam um histórico de discriminação por parte de regiões vizinhas, que frequentemente utilizam o termo "gangarra" de forma pejorativa. Apesar da escassez de recursos públicos e da infraestrutura precária, a solidariedade comunitária e a resiliência coexistem com o orgulho das origens, refletindo a luta constante para preservar uma herança cultural única em meio à invisibilidade social.
Somado a isso corrobora a hipótese de que antigos cristãos-novos, judeus sefarditas e descendentes de europeus setentrionais tenham participado da formação populacional sertaneja permanece objeto de debate historiográfico e genético. Muitos pesquisadores, entretanto, insistem que tais interpretações devem ser conduzidas com cautela, evitando leituras simplificadoras ou fantasiosas acerca da ancestralidade dos sertões do Nordeste.
Outro ponto levantado diz respeito com uma pesquisa anterior, realizada em 2017 por cientistas ligados a universidades da Flórida, Virgínia e à própria Universidade Federal do Ceará. Esse estudo analisou quase 1,6 mil indivíduos nordestinos e utilizou cerca de 800 mil marcadores genéticos, chegando à conclusão de que a ancestralidade europeia representava mais da metade da composição genética do cearense, seguida da indígena.
Ainda assim, a controvérsia revelou algo maior do que uma simples disputa acadêmica. Ela expôs o permanente fascínio que o sertanejo nutre por suas origens, pela memória de seus antepassados e pelas marcas invisíveis deixadas pelas migrações, guerras, secas e travessias que moldaram o Nordeste ao longo dos séculos. No fundo, a pesquisa reacendeu uma velha pergunta, precisamente de onde veio esse povo resistente da caatinga, marcado pela mistura de sangues, culturas e destinos?
Nos espinhos da caatinga, nas veredas do sertão e nos caminhos antigos que ligavam o litoral às ribeiras interiores, formou-se um povo cuja identidade jamais poderia ser reduzida a uma única raiz. O cearense, por exemplo, nasceu do encontro entre europeus e indígenas nos idos de 1600 e tanto, onde a história, a memória e a ciência continuam tentando decifrar os rastros deixados pelo tempo.
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