CORONEL GURGEL
Francisco Gurgel de Oliveira, coronel da Guarda Nacional, nasceu em Caraúbas, no Rio Grande do Norte, sendo filho do segundo matrimônio de Antônio Francisco de Oliveira, tenente-coronel da Guarda Nacional, com Quitéria Ferreira de São Luís, conhecida como Dona Quitéria, natural de Aracati, no Ceará, filha do major José Gurgel do Amaral Filho e de Quitéria Ferreira de Barros, mulher de intensa religiosidade católica e destacada atuação na vida eclesiástica de Caraúbas, onde promoveu a criação da Paróquia de São Sebastião e a elevação da antiga capela à condição de igreja matriz.
Inserido em ambiente familiar de forte influência política, Francisco Gurgel construiu trajetória marcante na vida pública potiguar, destacando-se no complexo cenário político que se seguiu à queda de Miguel Castro, quando a coligação vencedora se fragmentou em razão da disputa pela vaga de deputado federal deixada por Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, sendo esta reivindicada por José Bernardo de Medeiros em favor de Janúncio da Nóbrega Filho, enquanto Pedro Velho apoiava seu irmão Augusto Severo de Albuquerque Maranhão.
Gurgel aliou-se aos irmãos Albuquerque, utilizando sua influência eleitoral na região de Mossoró para lhes garantir apoio, logrando Augusto Severo vencer o pleito, embora tivesse posteriormente sua nomeação anulada por Medeiros, com respaldo do presidente Floriano Peixoto. Nesse contexto adverso, o apoio prestado por Gurgel foi decisivo para a manutenção de Pedro Velho no poder, o que levou à cogitação de seu nome como sucessor do chefe político, opção por ele recusada em favor de uma candidatura à Câmara dos Deputados, para a qual foi eleito em 1894 e reeleito em 1896.
Com a cisão do Partido Republicano Federal, em 1897, Gurgel seguiu Pedro Velho e integrou a oposição ao governo chefiada por Francisco Glicério de Cerqueira Leite, posição que manteve até o atentado contra o presidente Prudente de Morais, ocorrido em 5 de novembro daquele ano, episódio no qual Pedro Velho foi implicado, levando Gurgel a retornar ao apoio governista, atitude que provocou seu rompimento definitivo com o antigo aliado, que passou a persegui-lo politicamente, sobretudo após a reaproximação de Gurgel com José Bernardo de Medeiros no plano federal, tornando dispensável o seu apoio local.
Em 1898, aliados próximos de Gurgel, entre eles Filipe Guerra e seu irmão João Gurgel de Oliveira, foram aposentados compulsoriamente pelo governador Joaquim Ferreira Chaves. Ainda tentou retornar à Câmara Federal em 1899, pela oposição, mas foi derrotado pelos partidários de Pedro Velho, circunstância que, aliada às novas dificuldades impostas pela política dos governadores inaugurada no governo Campos Sales, levou-o a afastar-se definitivamente da vida pública, recolhendo-se à fazenda São Sebastião, em Mossoró, onde viveu seus últimos anos, vindo a falecer aos setenta e seis anos de idade.
No plano familiar, contraiu matrimônio em primeiras núpcias com sua sobrinha Maria dos Anjos de Brito Guerra, falecida precocemente aos vinte e nove anos, quando ele ainda exercia o cargo de intendente de Mossoró, e, em segundas núpcias, a 9 de outubro de 1880, com Apolônia Ferreira da Nóbrega (1866–1909), meia-irmã da primeira esposa, filha de Brito Guerra e de sua segunda mulher, Josefina Agustina da Nóbrega, união da qual também enviuvou, tendo tido filhos em ambos os casamentos, três do primeiro e sete do segundo.
Sua inserção inicial na política deveu-se em grande medida ao apoio familiar, especialmente de seu cunhado Luís Gonzaga de Brito Guerra, futuro Barão de Assu, casado com sua meia-irmã Maria Mafalda de Oliveira, filha do primeiro casamento de Antônio Francisco de Oliveira, sendo este cunhado igualmente seu sogro, uma vez que Gurgel se casou, em 24 de outubro de 1866, com Maria dos Anjos de Brito Guerra, então com quinze anos de idade, prática consanguínea comum entre famílias abastadas do meio rural brasileiro com o objetivo de preservar o patrimônio.
Em 1877 assumiu a intendência municipal de Mossoró, exercendo a chefia do executivo local até 1880, e, em 1878, foi designado chefe do Partido Conservador no município pelo padre Antônio Joaquim Rodrigues, fundador da legenda na província, tendo sido também sócio fundador da Sociedade Libertadora Mossoroense, criada em 6 de janeiro de 1883 em defesa da abolição da escravatura.
Já no regime republicano, posicionou-se, ao lado de Brito Guerra, na oposição a Pedro Velho, exercendo influência decisiva na eleição do Congresso Constituinte Estadual de 1891, convocado por Amintas Barros, logrando eleger diversos deputados ligados ao seu grupo, entre os quais seu cunhado Filipe Néri de Brito Guerra, sendo ele próprio eleito segundo vice-governador, compondo a chapa com Miguel Joaquim de Almeida Castro, governador eleito, e José Inácio Fernandes de Barros, primeiro vice, que assumiu o governo interinamente em virtude da ausência de Castro, então no Rio de Janeiro como deputado federal.
Diante das pressões sofridas por Barros para reorganizar o Poder Judiciário em prejuízo de seus aliados, este renunciou, abrindo caminho para a ascensão de Gurgel ao governo, no exercício do qual promoveu ampla reorganização da magistratura estadual, nomeando correligionários para cargos de juiz de direito e desembargador, vinculados a um tribunal por ele informalmente estruturado sob a denominação de Tribunal Superior da Relação do Rio Grande do Norte, nomeações que foram anuladas tão logo Miguel Castro reassumiu o cargo, passando Gurgel à condição de adversário político.
No contexto da crise do governo Deodoro da Fonseca e da Revolta da Armada, que culminou na renúncia do presidente em 23 de novembro de 1891 e na ascensão de Floriano Peixoto, todos os governadores que haviam apoiado o golpe de Deodoro foram afastados, inclusive Miguel Castro, sendo este deposto em Natal por forças lideradas por Pedro Velho e José Bernardo de Medeiros, preso e deportado para Fortaleza, instalando-se no estado uma junta governativa que dissolveu o congresso estadual e convocou nova constituinte, da qual participaram, como eleitos, o irmão e o cunhado de Francisco Gurgel, que voltou a figurar como vice-governador, ao lado de Pedro Velho, então investido no cargo de governador.
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