BARÃO DO AÇU


 No panteão da nobreza potiguar do período imperial, restrito a apenas quatro titulares, avulta a singular figura do Doutor Luís Gonzaga de Brito Guerra, o Barão do Açu. Diferenciando-se de seus pares, majoritariamente ligados à aristocracia fundiária, ele obteve a mercê imperial em virtude dos relevantes serviços prestados ao País através de uma brilhante carreira na magistratura, sendo o único entre os norte-rio-grandenses a ostentar a honraria "com Grandeza", prerrogativa que lhe permitia o uso do brasão com coroa de Visconde. 

Natural de Campo Grande, onde nasceu a 27 de setembro de 1818, era filho de Simão Gomes de Brito e Maria Madalena de Medeiros, e encerrou seus dias em Caraúbas, em 6 de junho de 1896.

Sua formação intelectual consolidou-se na tradicional Faculdade de Direito de Olinda, onde se bacharelou em ciências jurídicas e sociais na turma de 1839. O início de sua trajetória pública deu-se no sertão, empossado como juiz municipal dos Termos do Príncipe (atual Caicó) e Acari, exercendo a função entre março e julho de 1843. A sua competência jurídica levou-o a assumir, subsequentemente, as judicaturas municipais de Açu, Santana do Matos e Angicos, em períodos que compreenderam os anos de 1843 e 1848. Ascendeu ao cargo de Juiz de Direito da comarca de Martins em 1851, servindo de 1852 a 1858, ano em que foi transferido para a comarca de Açu, onde permaneceu até 1873. A vida política correu paralela à jurídica: foi Deputado Provincial em três legislaturas (1842-43, 1846-47 e 1856-57) e alcançou o ápice administrativo na província ao ocupar a 1ª vice-presidência e, efetivamente, a Presidência do Rio Grande do Norte entre agosto e setembro de 1868.

O reconhecimento de seu notável saber jurídico projetou-o para além das fronteiras provinciais, sendo nomeado Presidente Desembargador da Relação de Ouro Preto, em Minas Gerais, cargo que ocupou em diferentes períodos entre 1873 e 1885. Atuou brevemente como Desembargador da Relação do Ceará em 1885, coroando sua carreira como Ministro do Supremo Tribunal de Justiça, a mais alta corte do Império, de 23 de março de 1887 a 10 de novembro de 1888. Sua folha de serviços à Coroa rendeu-lhe títulos de grande prestígio: foi feito Conselheiro por Carta Imperial de 1874, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa em 1875 e Comendador da Imperial Ordem de Cristo em 1881. Finalmente, sob o Gabinete de João Alfredo, o Decreto Imperial de 17 de novembro de 1888 conferiu-lhe o título de Barão do Açu com Grandeza.

Na esfera privada, a vida do magistrado foi marcada por três consórcios matrimoniais que geraram uma vastíssima descendência. Casou-se primeiramente com Maria Mafalda de Oliveira (1823-1860); após enviuvar, uniu-se a Josefina Augustina da Nóbrega (1827-1879); e, em terceiras núpcias, desposou Maria das Mercês de Oliveira (1858-1896), que faleceu menos de um mês após o marido. Desta árvore genealógica, ramificaram-se os filhos Adrião R. de Brito, Pautilia, Lino Constâncio de Brito Guerra, Maria Ubalda de Brito Guerra, Maria dos Anjos de Oliveira, Simôa Gaudiosa de Oliveira, Neomisia de Brito Guerra, Margarida Emília de Oliveira, Teófilo Olegário de Brito Guerra, Pedro, Paulo, Adrião R. de Brito (II), Boaventura Seráfico de Brito Guerra, João Crisóstomo de Brito Guerra, Apolônia Ferreira da Nóbrega, Felipe Nery de Brito Guerra, Filomena de Brito Guerra, Andrônico de Brito Guerra, Luís Gonzaga de Brito Guerra Filho, Maria Joana de Brito Guerra, Eufrozina de Brito Guerra, Eusébia de Brito Guerra e José Calazans de Brito Guerra, perpetuando o legado de um dos homens mais influentes do Rio Grande do Norte imperial.

Sob a atmosfera patriarcal do século XIX, desponta na história genealógica do Seridó a figura de Modesta Natália de Medeiros. Décima terceira filha do Tenente-Coronel da Guarda Nacional Francisco Antônio de Medeiros e de Ana Vieira Mimosa, Modesta nasceu na cidade de Caicó, Rio Grande do Norte, aos dois dias de fevereiro de 1862. Sua trajetória pessoal entrelaçou-se definitivamente com as raízes profundas da região ao contrair núpcias na Fazenda Umari, em 27 de novembro de 1883, com Francisco Justino de Medeiros, vulgarmente conhecido pela alcunha de Chico Gordo.

O esposo, Francisco Justino, carregava consigo uma vasta herança familiar. Era filho de Pacífico José de Medeiros e de sua primeira consorte, Francisca Xavier do Nascimento. Pela linha paterna, era neto de Manuel de Medeiros Rocha e Ana de Araújo Pereira, sendo esta filha de Antônio Paes de Bulhões e Ana de Araújo Pereira, e aquele, filho de Rodrigo de Medeiros Rocha e Apolônia Barbosa de Araújo — irmãos, respectivamente, de Sebastião de Medeiros Matos e de Antônia de Morais Valcácer. Já pelo ramo materno, Francisco descendia de Francisco Gomes da Silva e Maria Joaquina dos Santos Dantas. Sua avó materna era neta do Capitão Caetano Dantas Correia e de Josefa de Araújo Pereira, a qual, por sua vez, era filha do lendário patriarca Tomás de Araújo Pereira, o "Adão do Seridó", e de Maria da Conceição de Mendonça.

Deste consórcio fecundo, germinou uma descendência numerosa, da qual se destacam três ramos principais. A primogênita, Sebastiana Natália de Medeiros, conhecida como "Mulata", uniu-se a seu primo legítimo Antônio Cesino de Medeiros Filho. O terceiro filho do casal, Francisco Justino de Medeiros Filho, o "Chico", casou-se com Maria de Araújo Galvão. Contudo, foi através da segunda filha, Maria Fausta de Medeiros Dantas, que a família se ramificou com notável vigor político e social.

Maria Fausta contraiu matrimônio em 1900 com Justino Pereira Dantas. Nascido na Fazenda Oiticica em 1878, Justino era filho de José Calazâncio Dantas, o "Bembém das Oiticicas", e Enedina Maria de Sant'Ana, carregando o sangue dos Dantas e dos Soares Pereira. Proprietário da Fazenda Bom Descanso, no atual município de São José do Seridó, Justino Dantas firmou-se como chefe político local do Partido Social Democrático (PSD), exercendo a vereança em Jardim do Seridó por diversos mandatos entre as décadas de 1920 e 1930, além de ter sido Prefeito Interino em 1945 e 1946. Faleceu em 1954, deixando uma vasta prole.

A descendência de Maria Fausta e Justino Dantas é extensa. A filha Maria de Araújo Dantas (Maria dos Anjos), casada em 1917 com José Marcos de Medeiros, gerou oito filhos: Manuel, José Marcos Filho, Felinto e Gisela (todos falecidos na infância), além de Justino, Nair, Iny e Djalma. Outra filha, Enedina Modesta Dantas, desposou Pedro Jeremias da Cunha em 1917. Já Modesta Enedina Dantas, unida a José Estêvão Dantas, foi mãe de onze filhos: Severino, José Estêvão Filho, Maria Modesta, Francisco Estêvão, Severino Estêvão, Juarez Estêvão, Justino Neto, Inês Modesta, João Estêvão, Pedro Estêvão e Teresinha Modesta.

A linhagem prosseguiu com Almira Dantas de Góis, que em 1921 casou-se com Manuel Aureliano de Góis, gerando Adauto, Aníbal, Manoel, Ajace, João, Justino, Maria e José Dantas de Góis. Houve filhos de Maria Fausta que pereceram precocemente, como Francisco Justino Neto, Laurina e Pedro Celestino Dantas. Entretanto, a vida seguiu com Alice Dantas Meira, consorciada em 1930 com Manuel Salviano Meira, mãe de Maria Alice, Geraldo (falecido cedo), Ana e Severino (também falecido cedo). Severina de Medeiros Dantas casou-se em 1926 com Abdias Fernandes Dantas, gerando João, Juarez, Juracy e Jurandyr. Justino Dantas Filho, nascido em 1912, uniu-se a Palmira de Assis Dantas, com quem teve o filho Adeilson.

Dentre os filhos de Maria Fausta, sobressaiu a figura pública de José do Carmo Dantas. Nascido em 1913 e casado com Julieta Costa Dantas, foi um dos artífices da emancipação política de São José do Seridó, onde atuou como Vice-Prefeito e Prefeito entre 1968 e 1976. Sua gestão foi marcada pelo fomento à educação e obras de infraestrutura. José do Carmo e Julieta deixaram nove filhos: a auditora Francisca Zelita; o engenheiro agrônomo Zenilton Costa Dantas (pai de Danielle, Zenilton e Diogo); a cirurgiã-dentista Yolita; o engenheiro civil Adão da Costa Dantas (pai de Daniel, Leonardo, Cristiano e Vinicius); o técnico em mineração José da Costa Dantas; a médica Eva Maria; o técnico em contabilidade Justino da Costa Dantas; a administradora Maria de Fátima e a geógrafa Maria do Socorro.

A prole de Maria Fausta e Justino Dantas completou-se com Silvino e Quintila (falecidos na infância); Inácio de Medeiros Dantas, casado com Áurea Dantas de Melo; Benedito de Medeiros Dantas, esposo de Júlia; Lilália Dantas de Medeiros, casada em 1937 com Manuel Vieira de Medeiros; Teodora (falecida criança); Paulino de Medeiros Dantas, que em 1947 desposou Ignez de Azevedo Dantas; Manuel de Medeiros Dantas, casado com Teresa Dantas de Melo; e, finalmente, Inês de Medeiros Dantas, que faleceu solteira. Esta complexa teia genealógica reafirma a importância de Modesta Natália de Medeiros como matriarca de um clã que ajudou a moldar a história social e política do Seridó potiguar.

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