OS GALEGOS DOS SERTÕES DAS CAPITANIAS DO NORTE
A presença holandesa no Nordeste do Brasil, tradicionalmente circunscrita pela historiografia clássica aos engenhos litorâneos e às disputas comerciais em torno do açúcar, possui dimensões muito mais profundas e complexas do que durante longo tempo se admitiu.
Para além das fortalezas costeiras e das batalhas travadas nas capitanias marítimas, a experiência neerlandesa lançou raízes no sertão, penetrando os caminhos ásperos das ribeiras, convivendo com as nações indígenas e deixando marcas demográficas cuja memória ainda ecoa nas tradições do sertão setentrional.
Foi o escritor cearense Gustavo Barroso quem ofereceu algumas das mais sugestivas observações acerca desse legado humano ao descrever, nos sertões do Ceará, a sobrevivência de tipos físicos singularmente distintos do padrão luso-mediterrânico dominante.
Em suas observações, surgiam homens alourados, de compleição robusta, acompanhados de crianças de cabelos claros e “olhos cor de safira”, figuras que pareciam deslocadas da paisagem tropical e que, segundo o autor, guardavam reminiscências das antigas presenças flamengas no interior nordestino.
Para Barroso, tal conformação fenotípica resultava da mestiçagem ocorrida entre soldados e colonos neerlandeses com mulheres indígenas tapuias durante os anos da dominação holandesa. Aquilo que a ciência moderna denominaria heterose aparecia, no imaginário seridoense, como a explicação para a resistência física e a singularidade estética de certas prosápias espalhadas pelo interior.
Na Rio Grande do Norte, esse processo assumiu contornos particularmente dramáticos após a expulsão definitiva dos holandeses, em 1654. O colapso do domínio neerlandês não significou o desaparecimento imediato de seus habitantes. Conforme registrou o historiador Tavares de Lyra, a retirada foi marcada pelo abandono e pelo desespero.
Os tapuias aliados dos flamengos, receosos das represálias portuguesas, recuaram para os sertões profundos, retomando antigos pousos e caminhos de refúgio. Com eles seguiram numerosos holandeses impossibilitados de regressar à Europa, pois as embarcações disponíveis no porto de Natal eram insuficientes até mesmo para a evacuação militar. Restaram, assim, mulheres, crianças, idosos e moradores comuns entregues à própria sorte, dispersando-se pelas ribeiras interiores e aguardando socorros da Holanda que jamais chegariam.
Nas décadas seguintes, esses grupos sobreviveram em regiões afastadas, convivendo intimamente com populações aborígenes e gradualmente sendo absorvidos pelo universo sertanista e no Sertão do Seridó, a memória dessa presença persistiu sobretudo na tradição oral.
Velhos moradores transmitiram, de geração em geração, a convicção de que muitas famílias locais possuíam ascendência galega, não exatamente portuguesa. Entretanto, ao confrontar tal tradição com os registros paroquiais e genealogias tradicionais, observa-se quase completa ausência de documentação comprobatória.
Essa aparente contradição encontra explicação no próprio processo de assimilação colonial, pois os estrangeiros sobreviventes, para integrarem-se à sociedade luso-brasileira e escaparem à marginalização religiosa e política, submetiam-se ao batismo católico, adotando nomes portugueses e apagando oficialmente suas antigas identidades onomásticas.
Sabidamente, a aposição do sobrenome Silva trazia consigo o signo do recomeço, atuando no apagamento de antecedentes e de memórias pretéritas. Sem a exigência de uma ascendência consanguínea definida, sua escolha prestava-se a conferir uma nova identidade jurídica e social, viabilizando a integração do cidadão a um novo contexto cultural. Em resumo, sem origem definida e objetivando o apagamento do passado.
Ademais, a confirmação indireta da sobrevivência desses núcleos isolados surge em documentos relativos às entradas sertanistas promovidas por João Fernandes Vieira como nas correspondências remetidas ao rei de Portugal nos anos de 1674 e 1675, o célebre restaurador pernambucano relatou expedições realizadas pelas terras interiores do Rio Grande, alcançando regiões distantes do litoral.
Fernandes Vieira mencionou o encontro com uma misteriosa “gente branca” vestida à moda europeia, usando “calções e mangas apertados” justamente nas proximidades das ribeiras do Acauã e do Seridó. Convencionou-se designar de forma generica como “castelhanos ou galegos”, termos então empregados para estrangeiros europeus não portugueses. Nesse diapasão, o isolamento dessas populações, aliado à persistência de hábitos ocidentais em pleno Sertão do Seridó, sugere fortemente a presença de remanescentes flamengos refugiados entre as nações tapuias.
Entrementes, os sertões das Capitanias do Norte viviam, naquele contexto, um período de violentas transformações. A expansão da pecuária impulsionava a concessão de sesmarias e o avanço dos chamados curraleiros sobre territórios tradicionalmente ocupados pelos tapuias Janduís e pelos grupos da grande nação Tarairiú.
Para consolidar o domínio colonial, ergueram-se estruturas militares como a Casa Forte do Cuó, fundada em 1683 nas cercanias do atual município de Caicó. Em meio a esse cenário de conflitos, registra-se um episódio emblemático: um “certo holandês”, servindo agora às forças da Coroa portuguesa, comandou uma expedição armada contra tapuias na Serrota do Giz.
A antiga oposição entre lusos e flamengos dissolvia-se diante das exigências pragmáticas da guerra deflagrada. O estrangeiro outrora inimigo tornava-se aliado militar em razão de seu conhecimento do território e das técnicas de combate aprendidas durante os anos de convivência com os tapuias.
A integração definitiva desses remanescentes à coesão social do Sertão do Seridó operou-se sobretudo pela miscigenação. Mulheres tapuais e mamelucas tornaram-se companheiras dos primeiros colonizadores da fronteira pastoril, formando novas linhagens adaptadas à rudeza climática e às exigências da vida seridoense.
O cronista Zacharias Wagner já observava, ainda no século XVII, a robustez física dos descendentes de europeus com Tarairius, Cariris, Caicós e Icós, atribuindo-lhes vigor singular. Destarte, quando os primeiros criadores de gado portugueses penetraram definitivamente o Sertão do Seridó, encontraram populações mestiças já estabelecidas nas ribeiras supramencionadas — descendentes da fusão entre flamengos e tapuias.
Pelo amancebamento, pelo matrimônio católico e pela progressiva adoção de sobrenomes portugueses, consolidaram-se as primeiras famílias autenticamente seridoenses. Portanto, os chamados “flamengos perdidos” dos Sertões de Cima não desapareceram da história; antes, dissolveram-se lentamente na formação étnica e cultural do Nordeste interiorano. O que se extinguiu foi sua identidade oficial, não sua herança biológica e humana.
Seus traços sobreviveram na memória oral, nas feições de certas populações sertanistas, na persistência de fenótipos claros observados por viajantes e escritores, e sobretudo na própria constituição social dos sertões da Paraíba, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte.
O legado neerlandês no sertão potiguar não se resume, portanto, a fortalezas arruinadas ou episódios militares, tendo em vista encontra-se inscrito na longa e silenciosa miscigenação que ajudou a moldar a alma histórica do sertão nordestino.

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