As trilhas pedregosas que fraldeiam as serranias do Seridó parecem linhas pautadas sobre um papel-madeira pedindo carta. Quem caminha por esses chãos ao rés do chão, perto da vida e do leitor, logo compreende que as crônicas das ribeiras do Apodi, do Piranhas e do Seridó não se sustentam na anemia das análises acadêmicas isoladas; sustentam-se, antes, na têmpera de linhagens patriarcais que converteram o isolamento em autonomia econômica e autoridade moral. Entre esses varões de estimação, a família Fernandes Pimenta riscou o seu nome com o traço vigoroso e sábio da integridade absoluta e do desbravamento territorial.

Tudo principiou na terceira década do século dezoito, quando três parentes legítimos arribaram de Portugal em busca das vastidões do Brasil. Enquanto um irmão e um primo assentaram praça na Bahia e no Ceará, o patriarca Antônio Fernandes Pimenta, natural da Vila de Faral, no Douro, estabeleceu-se no comércio de Nossa Senhora das Neves, na Paraíba. Varão de feições marcantes, a tradição oral das gentes da terra atribui-lhe ascendência judaica, justificando o apelido de "Pimenta" na coloração avermelhada que o sol e o sangue deram ao seu rosto. Casou-se primeiramente com Joana Franklina do Amor Divino — que entregou a alma a Deus a bordo do navio Dom José — e, contraindo segundas núpcias com Maria José da Silva, viu-se forçado a migrar devido às rivalidades acesas entre brasileiros e portugueses. Passou pelo Recife, buscou o Brejo de Areia e, descambando para o sertão de Panema, no Rio Grande do Norte, fincou os esteios da fazenda "Riacho do Pimenta".

Daquela cepa nasceu, por volta de 1735, em Mamanguape, o filho José Fernandes Pimenta, caboclo de primeira água que consolidou a fama de honradez que cobria o nome da família. Antes de fixar residência definitiva na fazenda "Sabe Muito", nas brenhas do Apodi, em 1775, José trabalhou no eito como vaqueiro e administrador da fazenda Mulato. Dele, os antigos guardaram uma lembrança que virou provérbio de honestidade: tendo contraído uma dívida sagrada, o velho foi encontrado morto sob a sombra de um pé de pau mesminho no dia do vencimento. No bolso de sua calça, a carteira sebosa guardava a quantia exata, em moedas contadas, destinada ao credor. Morreu, mas não faltou à palavra.

O status da fazenda Sabe Muito foi elevado à altura de um palácio sertanejo pelas mãos de seu filho, o Capitão Antônio Fernandes Pimenta. Homem de ideias elevadas e abastança graúda, o Capitão tornou-se senhor único de cerca de quinze léguas de terra, um latifúndio imenso que abraçava os atuais limites de Caraúbas, Apodi e Mossoró. Mantinha grandes negócios de gado, tangendo boiadas gordas para as feiras de Itabaiana e do Recife. Figura original, nas tardes de mormaço espalhava sua vasta coleção de moedas de ouro e prata sobre as lajes do terreiro, deixando que o sol do meio-dia limpasse o metal que reluzia aos olhos do mundo.

O Visitador de Pulso e os Versos de Pé-Quebrado

Se o Capitão Antônio reluzia em ouro, seu parente, o Cônego Manoel José Fernandes — o célebre Visitador Fernandes —, foi o farol que alumiou a vida pública, religiosa e parlamentar do Rio Grande do Norte no século dezenove. Nascido no alvorecer de 1800, Manoel José perdeu os pais precocemente e foi criado sob os desvelos de seu tio, o Padre Francisco de Brito Guerra, o Senador Guerra. Político sereno e apaziguador, de palavra mansa e discernimento fino, Luís da Câmara Cascudo o definiu como um verdadeiro mediador de conflitos naqueles tempos de ódios surgidos de veneta.

O Visitador Fernandes tomou o freio da política no dente: foi deputado à Assembleia Provincial por nove legislaturas entre 1835 e 1855, ocupando a cadeira de presidente daquela Casa em repetidos anos. Nomeado Visitador Apostólico e Delegado do Crisma, cruzava os caminhos do Rio Grande do Norte e da Paraíba com a autoridade de um bispo. Considerado um dos homens mais ricos de seu tempo, converteu sua fortuna em progresso material para Caicó, edificando residências elegantes e incentivando melhoramentos na matriz de Sant'Ana.

Porém, nem só de conciliação vivia a estirpe. O ramo de João Francisco Fernandes Pimenta — apelidado de "O Marinheiro" por ter nascido em alto-mar — trazia nas veias o sangue alvoraçado dos ideais liberais e republicanos. Seu filho, João Francisco Fernandes Pimenta Filho, aderiu com entusiasmo de moleque à Revolução de 1817, amargando a prisão entre os anos de 1818 e 1819. Anos mais tarde, em 1832, quando os coronéis do Jardim lhe ordenaram que pegasse em armas e comandasse forças para perseguir o rebelde Pinto Madeira, o Pimenta recusou o cabresto. Em versos satíricos de pé-quebrado, soltou o seu desabafo contra as elites atrasadas e reafirmou sua fidelidade ao ideal que acalentava o espírito:

"Não brigo com brasileiros, meus irmãos,

Os homens lá do Jardim já hoje estão atrasados sem bens,

Mas, se a República, este Bem, ainda aparecer...

hão de saber quem sou."

Os Assentamentos da Vila da Princesa e os Costumes da Época

O vigor físico dessa gente ficou documentado nos papéis cartoriais do Regimento Miliciano da Vila da Princesa, no Açu, quando os Fernandes Pimentas assentaram praça em julho de 1789. O escrivão da época, com caligrafia firme, deixou a radiografia dos irmãos e filhos da casa:

Nome

Parentesco

Descrição Física

Idade em 1789

Jozé Fernandes Pimenta

Filho de Antônio

Estatura ordinária, cheio do corpo, cor rosada, barba fechada.

54 anos

João Fernandes

Filho de Jozé

Estatura ordinária, pouca barba, cabelo ruivo, cara redonda, olhos azuis.

24 anos

Bento Fernandes Pimenta

Filho de Jozé

Corpo seco, cor alva, olhos fundos, princípio de barba, cabelo corredio.

17 anos

A dinâmica social da família também espelhava os costumes severos e a endogamia necessária para prender a terra e a linhagem sob as mesmas telhas. Praticava-se de rotina o casamento entre primos, como sucedeu na união de Luzia e João Fernandes, reforçando os laços de sangue. Mas o temperamento dos Pimentas não aceitava desobediência. André José Fernandes desmanchou o seu segundo matrimônio com Luiza Maria da Encarnação após a esposa contrariar sua ordem expressa: Luiza viajou para a casa da mãe durante uma feira de gados, deixando o marido brabo no oitão. André passou o resto da vida separado, sem sequer amolecer o coração pelo fato de Luiza carregar na barriga um filho seu, fruto daquela união interrompida pelo orgulho sertanejo.

A história dos Fernandes Pimenta permanece viva na memória do povo como o retrato de uma civilização monumental e arcaica que se ergueu sobre os lajedos da tradição. Concluo, pois, que, como Canudos que não se rendeu, o orgulho e a história dessa estirpe também não se renderão, seguindo em frente na dimensão transcendental das coisas eternas.

 

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