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Mostrando postagens de junho, 2026
  Capítulo: O Horizonte das Dunas e a Fala Ausente de Caminha De catabi em catabi, as trilhas pedregosas que cortam o sertão do Seridó parecem nos lembrar que cada pedaço de chão da antiga Capitania do Rio Grande traz o traço vigoroso e sábio da especulação, onde a inteligência das gentes da terra busca sempre reescrever o riscado de sua própria história. Se no campo da genealogia e da pastorícia nós firmamos um império incontestável, nas brenhas da costa leste as águas do mar e as linhas da cartografia científica impõem um freio de discernimento às teses mais entusiasmadas. Há um bocado de tempo que corre no terreiro da literatura potiguar uma conchambrança acadêmica de alta estirpe: a hipótese de que o descobrimento do Brasil não se deu na Bahia, mas sim nas praias arenosas do Rio Grande do Norte. De Lenine Pinto e Tânia Teixeira, fincados no Cabo de São Roque e na Praia dos Marcos desde a era de 1998, até Manuel Dantas, Shesma e Furtado nestes tempos mais modernos, os defensores...
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  As trilhas pedregosas que fraldeiam as serranias do Seridó parecem linhas pautadas sobre um papel-madeira pedindo carta. Quem caminha por esses chãos ao rés do chão, perto da vida e do leitor, logo compreende que as crônicas das ribeiras do Apodi, do Piranhas e do Seridó não se sustentam na anemia das análises acadêmicas isoladas; sustentam-se, antes, na têmpera de linhagens patriarcais que converteram o isolamento em autonomia econômica e autoridade moral. Entre esses varões de estimação, a família Fernandes Pimenta riscou o seu nome com o traço vigoroso e sábio da integridade absoluta e do desbravamento territorial. Tudo principiou na terceira década do século dezoito, quando três parentes legítimos arribaram de Portugal em busca das vastidões do Brasil. Enquanto um irmão e um primo assentaram praça na Bahia e no Ceará, o patriarca Antônio Fernandes Pimenta, natural da Vila de Faral, no Douro, estabeleceu-se no comércio de Nossa Senhora das Neves, na Paraíba. Varão de fei...
O Povo Gangarra: identidade, origem e realidade socioambiental da comunidade do Bandeira 1. Introdução: a identidade Gangarra e o sentimento de pertença A identidade “Gangarra” constitui-se como uma construção social complexa, atravessada por significados ambivalentes que oscilam entre o etnônimo internalizado e o estigma historicamente projetado por agentes externos. No olhar de fora, o termo frequentemente assume conotação depreciativa; entretanto, no interior da comunidade do Bandeira, ele foi progressivamente ressignificado, passando de marca de estranhamento a emblema de pertença. As narrativas locais revelam um percurso psicológico e social recorrente: na infância, muitos habitantes relatam o incômodo inicial diante da classificação externa, percebida como forma de segregação simbólica; com o amadurecimento, contudo, ocorre a inversão semântica do rótulo, que passa a ser apropriado como elemento de identidade coletiva. “Conhecer o povo”, nesse contexto, equivale a reconhecer a le...
  No panorama das letras nordestinas, a publicação de Cangaceiros (em 1953) marcou não apenas o canto do cisne romanesco de José Lins do Rego, mas também o ápice de sua maturidade literária ao destrinchar as entranhas do semiárido. Como segundo volume e desfecho do chamado Ciclo do Cangaço — vindo a lume exatos quinze anos após o lançamento de Pedra Bonita (em 1938) —, a obra transcende o mero relato do banditismo para se converter em um profundo tratado social e psicológico sobre o destino dos homens do sertão. O romancista paraibano mergulha na alma de uma gente encurralada por forças telúricas, desconstruindo a visão romantizada do cangaço para apresentá-lo em sua incômoda dualidade: uma força de resistência contra a miséria e, ao mesmo tempo, um implacável agente de terror, onde os limites morais entre os homens das forças volantes e os sequazes do crime frequentemente se apagam no sangue da violência mútua. Embora o livro guarde sua independência e possa ser lido por quem ...