No panorama das letras nordestinas, a publicação de Cangaceiros (em 1953) marcou não apenas o canto do cisne romanesco de José Lins do Rego, mas também o ápice de sua maturidade literária ao destrinchar as entranhas do semiárido. Como segundo volume e desfecho do chamado Ciclo do Cangaço — vindo a lume exatos quinze anos após o lançamento de Pedra Bonita (em 1938) —, a obra transcende o mero relato do banditismo para se converter em um profundo tratado social e psicológico sobre o destino dos homens do sertão. O romancista paraibano mergulha na alma de uma gente encurralada por forças telúricas, desconstruindo a visão romantizada do cangaço para apresentá-lo em sua incômoda dualidade: uma força de resistência contra a miséria e, ao mesmo tempo, um implacável agente de terror, onde os limites morais entre os homens das forças volantes e os sequazes do crime frequentemente se apagam no sangue da violência mútua.
Embora o livro guarde sua independência e possa ser lido por quem desconhece os antecedentes da trama, é na continuidade da saga dos irmãos Vieira que a narrativa alcança sua maior voltagem dramática. A família serve de microcosmo para ilustrar as respostas possíveis diante da brutalidade institucionalizada da região. Bento Vieira, o Bentinho, destaca-se como o fio condutor e o protótipo do herói passivo, figura contemplativa que evoca a sensibilidade impotente de Carlinhos de Menino de Engenho. Criado longe do lodaçal do crime sob a sombra protetora de um padre, Bentinho carece do calibre necessário para enfrentar aquele sertão de corações de pedra, arrastando-se pelos caminhos como um observador torturado pela sina de carregar o mesmo sangue do maior facínora da ribeira. No extremo oposto ergue-se Aparício Vieira, o irmão mais velho que as circunstâncias coroaram como o temido Rei do Sertão, líder absoluto do bando e encarnação viva da violência que desafia os poderosos. Entre os dois extremos caminha Domício, o irmão do meio, criatura de sentimentos nobres que, por puro conformismo e falta de horizontes, acaba por sucumbir à barbárie do cangaço. Assistindo à dispersão e à ruína de sua semente, a mãe desaba na alienação mental, e sua loucura torna-se o retrato mais pungente da dor das mulheres sertanejas diante do crime.
A engrenagem do cangaço, como bem demonstra o romance, não se sustenta no vazio; ela se alimenta de uma estrutura agrária apodrecida e conivente. O sertanejo comum, desprovido de posses ou de defesas, encontra-se espremido entre o dente do lobo e a bota do caçador, sofrendo os saques e os desatinos dos cangaceiros e as atrocidades igualmente perversas da polícia do Estado, que castiga inocentes sob o pretexto de manter a ordem. Essa polaridade da opressão ganha contornos nítidos nas figuras de Cazuza Leutério e do Capitão Custódio. Este último, enlouquecido pelo luto da perda de um filho e asfixiado pela impunidade reinante, passa a figurar como coiteiro de Aparício, enxergando na faca do cangaceiro a única justiça possível para satisfazer sua sede de vingança, provando que naquelas paragens onde o Estado é ausente, a violência mútua torna-se a moeda corrente das relações humanas.
A atmosfera que envolve os personagens é impregnada de um misticismo rústico e contraditório, uma terra onde os homens matam e rezam com a mesma naturalidade, buscando na fé um bálsamo para as agruras do corpo ou uma justificativa divina para as suas atrocidades cotidianas. É um mundo de extrema hostilidade para as moças donzelas, que vivem sob o pavor constante do ultraje físico e do estupro, sejam por parte dos asseclas do cangaço ou das tropas do governo. José Lins do Rego desmistifica o brilho falso das joias e dos lenços de seda dos bandoleiros, expondo aos olhos do leitor a realidade crua de jovens que ingressam no bando atrás de glória e encontram apenas a fome cega, as marchas forçadas sob o sol causticante e a necessidade de se enterrar em esconderijos infectos, num eterno jogo de caça e caçador.
O fatalismo corre nas veias da prosa, manifestado na aceitação dolorosa de Bentinho quando reconhece a inutilidade de lutar contra o destino e a obrigação de se curvar diante daqueles que detêm a razão das armas. O autor nos mostra que, para sobreviver naquelas paragens de lei nenhuma, exige-se uma morte prévia da sensibilidade, um sepultamento forçado de qualquer preceito moral em troca do abraço definitivo com a brutalidade do ambiente. Ao fechar as páginas de Cangaceiros, o que resta é o sentimento de agonia de um povo capturado por um sistema secular de opressão. Com sua linguagem eivada do falar do povo e sua arguta compreensão da psicologia do sertanejo, José Lins do Rego legou uma das mais ricas e complexas crônicas do interior brasileiro, deixando a certeza amarga de que, sob o império do cangaço e das dores daquele cotidiano amaldiçoado, o direito de sonhar com um amanhã digno era um luxo inacessível para a maioria dos viventes.
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