Capítulo: O Horizonte das Dunas e a Fala Ausente de Caminha

De catabi em catabi, as trilhas pedregosas que cortam o sertão do Seridó parecem nos lembrar que cada pedaço de chão da antiga Capitania do Rio Grande traz o traço vigoroso e sábio da especulação, onde a inteligência das gentes da terra busca sempre reescrever o riscado de sua própria história. Se no campo da genealogia e da pastorícia nós firmamos um império incontestável, nas brenhas da costa leste as águas do mar e as linhas da cartografia científica impõem um freio de discernimento às teses mais entusiasmadas.

Há um bocado de tempo que corre no terreiro da literatura potiguar uma conchambrança acadêmica de alta estirpe: a hipótese de que o descobrimento do Brasil não se deu na Bahia, mas sim nas praias arenosas do Rio Grande do Norte. De Lenine Pinto e Tânia Teixeira, fincados no Cabo de São Roque e na Praia dos Marcos desde a era de 1998, até Manuel Dantas, Shesma e Furtado nestes tempos mais modernos, os defensores da tese do Norte vêm palmilhando caminhos e gastando tutano e tinta para provar que a frota de Cabral deitou âncoras em águas potiguares.

Mas a ciência cartográfica, quando vazada na voz fria e analítica do Professor Levy Pereira, põe as cartas na mesa com franqueza e lealdade de beiradeiro. Confrontando as proposições locais com a Carta de Pero Vaz de Caminha, os dados hidrográficos do século dezenove e o olho atilado de levantamentos contemporâneos feitos com drones, Levy Pereira demonstra que a tese do Rio Grande padece de falhas físicas de visibilidade e interpretação geográfica.

O Fator do Horizonte e o Esbarro da Curvatura

A grande peleja dessa história reside na morfologia daquilo que Pero Vaz de Caminha, com sua caligrafia firme e elegante, descreveu como um “monte muito alto e redondo”. Os primeiros defensores da hipótese potiguar buscaram o prumo no Pico do Cabugi, mas o galopar dos anos e a necessidade de ajustar as coordenadas de navegação forçaram uma mudança de paradigma: migraram para a Chapada da Serra Verde ou do Torreão. Ora pois, aí está o primeiro esbarro: a Serra Verde é uma chapada — um planalto linear e plano —, divergindo por completo da feição redonda que o missivista do Rei registrou em 1500. Para sanar a discrepância, os entusiastas da tese esticam a escala vertical e achatam a horizontal em suas imagens, num exagero visual que faz uma chapada plana assumir o garbo de um pico pontiagudo.

Mas o argumento vai ao chão quando esbarra na física implacável da curvatura da Terra. Caminha bem anotou a ordem dos sucessos: primeiro o avistamento da terra e, ato contínuo, o lançamento do prumo, medindo uma profundidade de 19 braças — coisa de 55 metros de fundo. Na costa norte-rio-grandense, essa linha de profundidade só vai se achar distante da terra, a uma jornada de 30 a 50 quilômetros do largo.

Cálculos matemáticos rigorosos, considerando a altura de um observador empoleirado no topo do mastro de uma nau a 33 metros de altura e a altitude da própria Serra Verde, provam que, mesmo contando com os mimos da refração atmosférica — que curva a luz em cerca de 8% além do horizonte geométrico —, a chapada estaria inteiramente escondida abaixo da linha do horizonte. Daquela distância onde Cabral deitou o prumo, a curvatura terrestre engole a serra, tornando-a invisível aos olhos do marinheiro mais experiente.

$$\text{Distância de Visibilidade Geométrica} \approx 3.57 \times (\sqrt{H_{\text{observador}}} + \sqrt{H_{\text{alvo}}})$$

As Barretas de São Roque e o Testemunho dos Hidrógrafos

Expedições de campo realizadas com a modernidade dos drones nas altitudes de até 250 metros e na chamada "hora de véspera", às três da tarde, bateram o martelo da realidade: o horizonte oriental do Rio Grande do Norte é dominado soberanamente pela linha contínua das dunas de areia. A Serra Verde, quando minimamente perceptível por capricho do tempo, desenha-se como uma elevação extremamente suave e linear, incapaz de se fazer notar por quem vem do largo.

Essa constatação visual não é novidade da ciência de agora; já estava assentada nos mapas do século dezenove. Ernest Mouchez, diretor do Observatório Nacional da França e andarilho atilado das ciências hidrográficas, mapeou a nossa costa e afirmou categoricamente que nesta parte do país não existem montanhas visíveis para quem vem do mar alto; apenas as dunas alvas são percebidas pelo navegante. Vital de Oliveira, patrono da hidrografia brasileira, corroborou o parecer ao detalhar os perigos medonhos dos Baixos de São Roque, uma das costas mais traiçoeiras do Brasil, coalhada de recifes sobreaguados e bancos de areia.

A frota de Cabral, composta por naus pesadas e carregadas para a longa e custosa viagem das Índias, dificilmente arriscaria meter o casco por entre as "barretas" — os canais estreitos e perigosos entre os recifes potiguares — para buscar porto seguro, quando o intento maior era uma navegação de resguardo e sobrevivência.

A tese do descobrimento em terras norte-rio-grandenses, conquanto seja bela e acalente o orgulho de nossa gente, carece de cimento cartográfico e solidez visual. Do ponto de vista da análise fria dos dados, os argumentos potiguares apresentam falhas que mantêm o prumo da história tradicional assentado na Bahia. O Seridó e o Rio Grande seguem em frente, fazendo a sua própria e rica história baseada nos lajedos da pecuária e da tradição de seu povo, sabendo que a sua grandeza transcendental não carece de forçar o passado para reluzir perante o mundo.

 

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