José Pires Dantas
Humberto Formiga recorda o Professor José Pires Dantas como um homem que fez da pesquisa científica um modo de ensinar e de viver. Ex-aluno do Centro de Ciências Agrárias, antiga Escola de Agronomia do Nordeste, ele afirma que o aprendizado não se limitava às salas de aula nem aos laboratórios. A convivência diária permitia acompanhar o professor no trabalho, na orientação das pesquisas e na maneira de conduzir a própria vida. Foi dessa proximidade que surgiram lembranças que permaneceram ao longo dos anos.
A formação dos estudantes era marcada por uma rotina de trabalho intenso. As pesquisas concentravam-se nas Ciências do Solo e na Nutrição de Plantas, com experimentos voltados para o estudo da salinidade dos solos e da resistência de variedades de feijão. O laboratório permanecia em atividade durante noites, fins de semana e feriados. Havia água para destilar, matéria seca para moer, amostras para preparar e experimentos para acompanhar. Cada etapa exigia atenção aos procedimentos e respeito aos resultados obtidos. Segundo Humberto Formiga, o professor repetia que a pesquisa somente tinha valor quando conduzida com método e compromisso com a verdade científica.
Os dados produzidos nos experimentos eram organizados para apresentação em congressos e reuniões científicas realizados em diversas regiões do país. Os estudantes aprendiam que a pesquisa não terminava na bancada do laboratório. Era preciso interpretar os resultados, discutir as conclusões e submetê-las ao exame da comunidade científica.
O convívio com José Pires Dantas ultrapassava as atividades acadêmicas. A casa do professor permanecia aberta aos alunos, principalmente nos fins de semana. Ali encontravam livros especializados de difícil acesso, consultavam bibliografia sobre solos e utilizavam fitas cassete para o estudo de inglês e espanhol, idiomas necessários para acompanhar a produção científica internacional. O ambiente aproximava estudantes e família, criando uma convivência que Humberto Formiga descreve como fraterna. No depoimento, ele menciona o filho Rodrigo e faz referência a outro filho cujo nome não foi identificado na transcrição.
Na lembrança do antigo aluno, esse acolhimento produziu efeitos que foram além da formação técnica. O professor transmitia dedicação ao trabalho, disciplina, persistência e responsabilidade diante do conhecimento produzido. A orientação científica vinha acompanhada de exemplos cotidianos de comportamento, respeito às pessoas e compromisso com a profissão.
Décadas depois, Humberto Formiga afirma que continua identificando essa influência em sua própria trajetória. Ao recordar a atuação em diferentes funções públicas, considera que muitos dos princípios que orientaram suas decisões foram aprendidos durante os anos de convivência com José Pires Dantas. Na sua avaliação, os antigos orientandos procuram transmitir esses mesmos valores às novas gerações, preservando uma forma de exercer a profissão baseada na ética, no rigor científico e na responsabilidade.
Ao resumir a importância do mestre, Humberto Formiga afirma que o aspecto humano foi mais marcante do que os próprios resultados das pesquisas desenvolvidas. Segundo suas palavras, "este aspecto humano é que eu acredito que tenha sido muito mais importante do que ter descoberto quantas variedades de feijão eram resistentes à salinidade". Em outro momento, define José Pires Dantas como "uma figura absolutamente extraordinária", cuja influência alcançou não apenas a formação profissional, mas também a construção do caráter de seus alunos. Recorda ainda que o professor conduzia a metodologia científica ao mesmo tempo em que ensinava a valorização da verdade científica como princípio permanente da atividade acadêmica.
O testemunho revela um professor cuja contribuição, na memória de seus ex-alunos, não se restringiu às pesquisas realizadas nem às publicações produzidas. Sua presença permaneceu associada à formação de pesquisadores que aprenderam a unir conhecimento, disciplina e responsabilidade, levando esses princípios para a vida profissional e para o serviço público.
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